Artigo: O que podemos aprender com Campo Novo e os corpos amontoados?

2014-01-13T16:56:53+00:0013 janeiro, 2014|

Por  Sandro Colferai, professor

  É segunda-feira, final da manhã, dia 13 de janeiro de 2014, século XXI. Estou aqui sentado à minha mesa lendo sobre a cognição e, num dos intervalos da leitura, abro alguns dos sites de notícia de Rondônia, afinal é mais importante o que acontece perto da gente. As notícias sobre a ação de um bando de criminosos em Campo Novo de Rondônia dominam as manchetes. Primeiro fala-se da invasão de um quartel da PM, do roubo de armamentos, de um policial baleado enquanto trabalhava, de reféns e de saques na cidade. Tudo ao estilo do cangaço moderno! Depois aparecem os relatos do deslocamento de forças especiais da PM para a região (em aeronaves!), de um confronto na estrada, e de desencontrados números, que dão conta de seis, sete, e até oito bandidos mortos.

camponovoOs relatos são curtos, urgentes, e cada site quer antes dar a informação – afinal é fundamental sair na frente… E os comentários abundam! Os internautas, ávidos por notícias frescas, parabenizam os policiais pela eficiência. Todos parecem se sentir mais seguros agora, pois há “menos oito” – como disse uma moça no seu comentário. Entre os elogios aparecem alguns temerosos. O temor é pela reação do pessoal dos “direitos dos manos” – esta uma expressão de outro comentarista. Os mortos são bandidos, e por isso mereciam morrer. Os mortos são gente que aterrorizou uma cidade inteira, baleou um policial, e por isso mereciam morrer. Só esta reação nos comentários das matérias merece uma detida reflexão sobre o estado das coisas, que nos trazem ao ponto de se comemorar a morte de oito pessoas por forças do estado.

Mas, não é isso que quero fazer aqui. O que quero é destacar o pronto reconhecimento feito pelo secretário de segurança de Rondônia, Marcelo Bessa. O reconhecimento pelo bom trabalho, que inclui a reação das polícias de Rondônia, a caçada e o cerco aos bandidos, e uma camionete cheia de corpos mostrada em todos os sites de notícias do Estado. Nos textos publicados ainda na manhã de segunda-feira Bessa já os parabenizava. Aparentemente efusivo por tudo o que acontecia, na sua página pessoal no Facebook o secretário publica, por volta do meio-dia, a tal foto do amontoado de corpos na carroceria da camionete e comenta: “Excelente trabalho! Parabéns guerreiros!”.

E aqui finalmente chego ao ponto! Os policiais reagiram, perseguiram, cercaram, um tiroteio ocorreu e os bandidos foram mortos em legítimo confronto para o qual todo policial deve estar preparado. Mas, o homem que comanda as forças policiais de Rondônia publicamente festejar um carreto de corpos, bom, aí já é demais! O secretário parece querer esquecer que é o representante do Estado que não oferece as condições necessárias para que invasões e roubos a quartéis da PM não aconteçam. É o mesmo Estado que deixa a população de uma cidade inteira à mercê de bandidos, que podem fazer policiais reféns e saquear uma cidade inteira.

Não é hora de festejar! É hora de prender os culpados e cobrar os responsáveis. Os primeiros são os caras que atiraram contra policiais, roubaram armas e ameaçaram a gente de Campo Novo. Os outros são os gestores do Estado, especialmente da segurança pública, o mesmo setor que não raras vezes precisa lançar mão de ajudas de empresários para fazer seu trabalho; cujos agentes, os policiais, precisam ser criativos para dar conta das demandas sem a devida estrutura; precisam se desdobrar para cobrir a necessidade de segurança da sociedade frente ao reduzido efetivo; e a população, que vê tudo isso, cobra um genérico investimento em segurança e desconfia que as coisas não vão se resolver. Já parece não haver confiança na polícia e registros de ocorrências mais servem como registro burocrático do que esperança na resolução de seus casos!

Comemorar gente morta, qualquer gente, não é a melhor reação, mas é sintoma. É sintoma de um estado que, ao que tudo indica, prefere viver de espetáculo do que de planejamento, preparação e prevenção. Precisamos aprender com os corpos amontoados e com a população aterrorizada. Precisamos aprender com o policial baleado e com os reféns. Precisamos prestar atenção às reações dos gestores, afinal é 13 de janeiro de 2014, século XXI, época em que cangaceiros e um monte de corpos não podem ser admitidos. Assim como a reação deve ser uma crítica aos modos de tornar efetiva a segurança entre nós, e não uma efusiva comemoração diante de pessoas mortas. Pensemos!

16 comentarios

  1. Marcus Fernando Fiori 13 janeiro, 2014 at 4:04 pm

    Execução sumária? Legítima defesa? Não sei, não estava lá para ver. O fato é que, diante de oito corpos, não há nada – nada – a se comemorar.

  2. Fernando H. Araujo 13 janeiro, 2014 at 4:15 pm

    A tendência a respeito da violência em Rondônia, como em todo País, é de as pessoas imaginarem que você só pode ser sinceramente contra algumas atitudes dos aparelhos de segurança do Estado se porventura já tiver sucumbido à ação de bandidos ou já tiver chorado diante do caixão de um ente querido vitimado pela falta de misericórdia alheia. Fora isso, tudo o que você disser não passa de papo furado ou academicismo. Nesses casos, ser minimamente racional é loucura!

  3. nice 13 janeiro, 2014 at 4:16 pm

    Parabéns pelo artigo.

  4. nice 13 janeiro, 2014 at 4:29 pm

    Um policial baleado, nenhum bandido baleado ou preso todos mortos. As mortes foram em Legítima Defesa? O fato é que a ação policial deve ser investigada para saber o que realmente houve.

  5. Amabile Casarin 13 janeiro, 2014 at 6:11 pm

    Desde cedo estou pensando nisto. Ainda impera o pensamento de que bandido bom é bandido morto, não importando a circunstância disto.
    Mas o que poucos pensam é que situações como esta são geradas por vários problemas, inclusive a falta de segurança dentro do quartel. Mais fácil comemorar uma ação “bem realizada” do que resolver o problema.

  6. Fernando Storary 13 janeiro, 2014 at 7:22 pm

    Primeiro, preciso elogiar o seu artigo. Excelente. Foi pontual nos questionamentos que, ao meu ver, é necessário que façamos. A população, em comemoração a morte de iguais – mesmo que tenham cometido barbáries -, é deprimente. O secretário, que antes de tudo, errou ao publicar fotos absurdas que mais parecem retratos dos campos de concentração nazistas, pecou novamente ao dizer que uma operação que termina com oito mortos é um sucesso. É tachar-nos de ignorantes. Esse infeliz episódio serve para expor os problemas gritantes da segurança pública em nosso estado.

  7. Fernando H. Araujo 13 janeiro, 2014 at 8:59 pm

    O Estado sabe que jamais será condenado pela opinião pública. Ele próprio contribui para uma péssima qualidade de vida dos ditos cidadãos, o que provoca certa alienação e inibe o senso crítico. A maioria tem problemas demais, prolemas que nem imaginam qual seja a origem. Rezam para que apareça uma solução para todos, sejam eles individuais ou coletivos, e que isso não os penalize mais do que a vida cotidiana. A criminalidade é um desses problemas para o qual o Estado tem um remédio de ação imediata e que priva a população de qualquer esgotamento: os policiais e seus fuzis.

  8. Francisca Girão 13 janeiro, 2014 at 10:14 pm

    Não é humano festejar morte, mais numa situação como foi relato , os policiais estavam trabalhando e são preparados pra isso, creio que melhor acontecer mortes de um bandido do que um cidadão que vive do seu trabalho ,não justo um trabalhando perder sua vida pra um elemento que a vida dele está predestinada isso, muitas vezes escolhemos o caminho mais complicado.

  9. rozeni bernardes de souza 14 janeiro, 2014 at 8:47 am

    EM jacinopolis um distrito bem perto de campo novo estão lá 12 policias. Que els praticamente jogaram lá .La eles mesmo se quiserem trabalhar estragam uma viatura els arrumar uma moto els arrumam . Fazem um concursso para defender vidas e tem que pagar para trabalhar isso é muito injusto o salario de um policial é muito pouco, e ainda a mercem de uns bandidos que as vezes estão mais cheios de armas que els . Ficam ai minha revolta seu secretario de segurança . Presta mais atenção nos seus , sem eles vocês não pode trabalhar . Els tem família também como você.

  10. ZAIRA FERRAZ CARDOSO 14 janeiro, 2014 at 12:37 pm

    Excelente artigo. Conseguiu explicar o que eu tentei mas não consegui… Obrigada!

  11. Itamar Lima 14 janeiro, 2014 at 2:18 pm

    Parabéns prof. Sandro, pela lucidez do artigo, precisamos pensar além dos corpos fuzilados.
    Embora a população sinta-se aliviada com sangue marginal correndo pelas ruas, não é bem isso que ela quer. Queremos mais que sangue, queremos segurança, um sistema prisional que funcione, podem matar 10, 20 ou 30, porém, 50 ou 100 surgirão em seus lugares. Precisamos de lugar com mais paz para viver.

  12. Deivsson Bispo 14 janeiro, 2014 at 4:57 pm

    Interessante o artigo, contraditório mas interessante.

  13. Welfer 14 janeiro, 2014 at 6:31 pm

    Só acho o seguinte antes essas desgraças desses vagabundos ser mortos do que nos pessoas do bem que damos um duro danado pra cuidarmos de nossas famílias e no dia que algum de vcs aí que estão entrando na questão de aplaudi ,tirar fotos publicar etc perde um ente querido de vcs por causa desses vagabundos. Ou quando vir alguém e rouba sua casa seu carro ,aí vcs vai cair na real que bandido bom e BANDIDO MORTO MESMO, e vcs que estão pedindo inquérito para apurar os fatos de nenhum bandido preso só morto, acho o seguinte estão com peninhas dessas desgraças peguem pra vcs levam pra casas de vcs e cuidem e tentem educalos pra ver se conseguem , e essas fotos tem de circula a net mesmo o vídeo da população aplaudindo os policiais tem de circula sim o mundo assim quem sabe fazendo isto esses bandidos não pensem antes de vir em uma cidade aterrorizando e roubando toda população, essa situação merece sim meu respeito particularmente eu não só aplaudi essa ação mas soltamos foguetes e que essas ações podem sim ser repetidas pelas autoridades quem sabe assim teremos um pais mais digno com mais segurança onde nos podemos ir e vir sem medo de um bandido vim e nos roubar. E fica aqui o meu reclame aos nossos governantes vamos arma mas os nossos policiais para que essas ações se repitam mais com armas mais potentes que não fazem mais furinhos na cabecinhas desses marginais bandidos. Mais sim que estourem a cabeça e sejam irreconhecíveis e enterrados como indigentes.

  14. Máximo André dos Santos 17 janeiro, 2014 at 10:00 am

    O micro pensamento nos torna pessoas pequenas, a micro visão de um todo nos faz pequenos.
    A visão macro de um ambiente trás conhecimento ao ser de que a uma existência de fatos muito maiores do que aqueles observados de perto.
    O artigo em pauta traz uma visão macro do que é o nosso problema em segurança publica, se pararmos para analisar em caráter de proporção, quando quantificamos o numero de habitantes, e analisamos o todo de nosso sistema prisional, temos todos os presídios do estado, tanto o de adultos quanto o de jovens super lotados, a secretaria de justiça (SEJUS) é uma secretaria falida, a central em porto velho é em um barracam. Em fim, é por esses e outros que vemos a importância do voto, pois a estruturação de um estado se faz com bons representante eleitos pelo povo, povo esse que trabalha e que não merece sofrer esse tipo de violência. O trabalho feito pela policia militar foi excelente, pois a unica solução a esse ponto dos fatos é essa tomada por esse trabalhadores, que lutam por nossa segurança e a de seus familiares, já o trabalho do secretário de justiça e de outros afins correlatos ao governo do estado de Rondônia É RIDÍCULO.

  15. Junior Peixoto 26 fevereiro, 2014 at 2:03 am

    Gostei do artigo, parabéns professor, precisamos de política de segurança pública mais firme, estruturada e de qualidade, sem esquecer das leis que devem ser muito mais rígidas do que são no Brasil.
    Quanto ao seu ponto de vista Nice, não sei se você faz parte da comissão do DH que irá apurar o caso, mas, pense… Se os policiais que tiveram em confronto foram justamente os do GOE (Grupo de Operações Especiais) é porque a coisa estava feia mesmo, além do mais, como você queria que os policiais reagissem à um grupo que acabara de roubar armas e munições dentro de um quartel, um grupo que trajavam até coletes balísticos, que prontamente estavam ali pra matar ou morrer?.. Policial sai de casa e reza, policial toda vez que sai de casa para o trabalho da um abraço nos filhos sem saber se será o de Adeus, tudo pra garantir a paz e o sossego da sociedade, que às vezes reage assim. Eu não tenho em minha mente que “bandido bom é bandido morto”, mas diga-me, esses elementos cometem atrocidades inimagináveis contra pessoas ou famílias que só querem viver sua vidas em paz, com as leis penais “frescas” que temos no Brasil, se tivessem sido presos logo estariam soltos, e voltariam a praticar os mesmos delitos. Peço que não condenem nossos bravos soldados, como o próprio artigo relata o erro está na política de segurança. Como narra o ator Wagner Moura no filme “Tropa de Elite”: Policial tem família, amigo! Policial também tem medo de morrer!

  16. harcker 13 abril, 2014 at 4:04 am

    Os 8 vagabundos nao vao fazer mal a mais ninguem, e sempre tem alguem pra defende, mas quando eles matam tua esposa ou teu filho, ai vai faze escandalo na frente de prefeitura pra apareçe na tv, é sempre assim, nunca ta feliz, alem da policia, a população deveria mata bandido tambem, certamente pode tirar um porte de arma e faze o que todo cidadao brasileiro deve fazer, limpar seu próprio pais

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