Artigo: A gente não quer só comida!

2014-01-15T12:35:25+00:0015 janeiro, 2014|

a-gente-nao-quer-so-comidaPor Sandro Colferai

 Pra começar um aviso: este texto tem endereço! Espero que chegue à prefeitura de Vilhena. Espero que chegue ao prefeito, aos secretários e a todos que possam ter o poder de decidir algo nesta cidade. Também é endereçado aos vereadores de Vilhena, mas também serve para o secretário executivo no Cone Sul e para os secretários de Estado, para o governador de Rondônia e aos deputados estaduais. O governador e o prefeito da hora são o Confúcio Moura e o Zé Rover, mas também pode servir para todos os seus antecessores, e para os que virão depois! Enfim, espero que um monte de gente leia, e que no final das contas sirva pra alguma coisa. É um desejo sincero!

Senhores, não é de hoje que estão todos fazendo discursos bradando que é preciso desenvolver Vilhena e Rondônia. Não é de agora que ter novas indústrias e postos de emprego é uma bandeira levantada por todos. Não é nenhuma novidade que crescer é um verbo por todos conjugado. Nesta esteira se comemora o aumento da população da cidade e do Estado; neste caminho os números sempre superlativos de carros e camionetes circulando são o destino de aplausos; o aumento da renda média e da arrecadação é motivo de comemoração – aqui em Vilhena mesmo acaba de ser anunciado que só em ICMS serão mais de R$ 40 milhões em 2014, a segunda maior arrecadação de Rondônia.

Tudo bem bacana, né! Bem, a pergunta que me incomoda, e faço a vocês, é: e eu com isso? E o Antônio Carlos, que mora lá no Setor 17, em Vilhena, ou o Roberto da Silva, que mora na Zona Leste de Porto Velho, com isso? Crescimento, desenvolvimento, mais carros, renda média em alta, arrecadação indo à estratosfera… que diferença isso nos faz? Na melhor das hipóteses há um carro na garagem, o aumento de salário depende da boa vontade do patrão – que dá em conta-gotas –, e crescimento e desenvolvimento são conceitos abstratos no nosso dia-a-dia. E a arrecadação que aumenta só faz sentido se for convertida em serviços e espaços públicos bem cuidados. Mas, não é isso que acontece: só vemos mais e maiores taxas sendo pagas (a bandeira amarela da conta de luz; o aumento do IPVA; o IPTU reajustado…).

É claro que há mais empregos, é claro que podemos – eu, o Antônio e o Roberto – consumir mais que do consumíamos há uma década, mas isso está longe de ser suficiente. A gente quer mais do que sobreviver. A gente quer viver! A gente quer espaços públicos decentes: praças que não estejam tomadas por vendedores ambulantes – que tipo de empregos o governador e o prefeito estão comemorando se ainda há tantos na informalidade?; queremos calçadas que não nos obriguem a andar no meio rua e, que quando existam, não sejam  tomadas por cadeiras de alguma sorveteria ou lanchonete abusada – cadê as obras públicas e a fiscalização?.

Não, vocês, os caras que mandam, nunca olham para isso. Os senhores mais parecem deslumbrados provincianos que querem copiar o que a cidade grande tem de melhor – nas cabeças de vocês é claro, pois por lá os pequenos espaços abertos são cada vez mais desejados! Bom mesmo, para vocês é transformar, e deixar transformar, espaços abertos em shoppings centers. Bacana é vigiar a população para que a periferia fique na periferia. Legal de verdade é organizar a cidade para a circulação apenas de carros – nem isso vocês conseguem, ou querem me convencer que o trânsito em Vilhena, com apenas 80 mil habitantes, e Porto Velho, por volta de 500 mil, funciona? –, sem transporte público decente e com a gente correndo o risco de ser atropelado toda vez que cruza uma avenida ou a BR-364?

A gente quer emprego e não um jeito de ganhar dinheiro; quer saúde, e não prédios com fachadas espalhafatosas e lotados de doentes; educação, e não filas na porta de escolas que se convertem em depósitos de crianças; segurança e não fotos de gente morta na carroceria de viaturas. A gente quer tudo isso, e vocês não serão merecedores de aplausos ao fazê-lo, pois trata-se de obrigação de vocês fazer cada uma dessas coisas. E a gente também quer teatros e centros culturais que não sejam apenas promessas. E queremos espaços públicos para que possamos usar com nossas famílias, para que sejam opção à programação de domingo à tarde na televisão. Lugares em que nossos filhos adolescentes possam se reunir! Ou vocês vão esperar até não haver praças, só praças de alimentação refrigeradas, e que os rolezinhos comecem por aqui para então reagir. Olha só o que está acontecendo em São Paulo: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/quem-mexeu-na-minha-praca-de-alimentacao-8299.html>. E não nos enganamos – eu, Roberto e Antônio: a reação será espetacular, um espetáculo para convencer a todos que vocês fizeram algo, quando o que acontece é exatamente o contrário. Não terão feito nada, vocês gestores!

E não me venham com essa história de que é pedir muito. São vocês mesmos que divulgam que Vilhena e Rondônia estão em franco desenvolvimento e que a arrecadação cresce. Então, mexam-se! Façam com que isso se transforme em vida de qualidade entre nós. Ainda acham muito? Bem, é simples: se é demais para vocês não se candidatem de novo, ou renunciem agora… e deem espaço para quem seja competente!

One Comment

  1. Fernando H. Araujo 15 janeiro, 2014 at 9:53 pm

    Um grande percentual de cidadãos acredita não ter nada a ver com isso; não se trata de ironia, porém. A crença é visceral. Este é um dos problemas. A zona de conforto em que boa parte da elite – senão toda ela – está mergulhada acaba sendo internalizada pela maioria que é sempre a mais prejudicada. Infelizmente, qualquer pedido de socorro soa como insanidade ou oposição política mais que tendenciosa… Estamos acostumados a desconfiar da menor boa vontade alheia, a taxar de louco o mais respeitável pensador ou crítico social. Bradamos: “Ora, quem são essas pessoas as quais se dão o direito de interferir nas nossas ilusões? Quem disse que nossas vidas serão melhores se tomarmos um choque de realidade?” Muita coisa nos impede de chegar à conclusão de que quem precisa mudar somos nós. Algumas delas é a convicção de que sob as asas do Estado estaremos sempre protegidos, de que com a Polícia matando marginais não há o que temer, de que se não há reclamação não há problema…

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