Artigo: Mundo mundano

2014-01-25T11:16:54+00:0025 janeiro, 2014|

Por Ivanor Luiz Guarnieri

comportamento1 A julgar pelo que nos informa a Tradição historiográfica, os homens do passado remoto, dito Idade Média, por exemplo, teriam um sentido de sacralidade muito mais acentuado do que o nosso. Em outras palavras, os homens de antigamente eram mais religiosos do que nós. De fato, considerando alguns escritos do passado, como as “Confissões” de Aurélio Agostinho (354-430), sente-se o espírito religioso em cada linha escrita pelo Bispo de Hipona. Isso sem contar Tomás de Aquino, Anselmo, as vidas dos santos, entre outros escritos.

 Mas o mundo modificou o homem, ou antes, o homem modificou seu mundo, e com o desenvolvimento do capitalismo o fundamento do que é humano deixou de ser visado principalmente numa suposta ideia de Deus e passou a ser buscado no próprio homem. A afirmação de que existimos porque Deus nos fez precisou competir com a ideia cartesiana do “Penso, logo existo”. Existo não só porque sou criatura de Deus, feita sua imagem e semelhança, mas porque penso.

Embarcados na ideia de que é o pensar que nos distingue das outras criaturas e de que o raciocínio é o que nos faz homem, foi possível construir, pela via da racionalidade e da experimentação científica, uma série inimaginável de artefatos. Máquinas das mais variadas formas e modelos, sistemas de comunicação assombrosos parecem fazer parte de nossas vidas há muito tempo, mas boa parte delas não existia a menos de 50 anos.

Com os avanços teóricos e a construção de meios de comunicação, poderia se esperar que as pessoas se comunicassem mais. Isso de certa forma ocorreu. Todos se comunicam com todos, mas quase ninguém escuta ninguém.

O excesso de informação prejudica a comunicação. Tudo muito instantâneo e fugaz. Assistir ao jornal da TV é menos instrutivo do que um filme, e, talvez, até menos favorável a pensar o mundo do que certas novelas. Parece absurdo o que digo? Radicalizemos essa ideia para melhor clareá-la. Ao assistir os principais jornais do País pergunte-se o que aquilo que é noticiado contribui para você compreender melhor as coisas. Junto com notícias ditas sérias, informações sobre o carnaval, o último contratado deste ou daquele time, a saúde da atriz fulana de tal e muita, muita curiosidade do mundo dos famosos. A notícia não é dada só porque é importante, é dada principalmente por ser interessante, atrair o telespectador que é também consumidor dos produtos que patrocinam os jornais e aumentam o faturamento das emissoras.

Muita informação, pouca degustação.  Como o tempo atual é de não perder tempo, o necessário ócio para ler com calma e analisar com cuidado é quase inexistente. Sem ócio murcham as grandes narrativas, os romances, contos, livros de história, de filosofia, análises geométricas, que ficam confinados aos espaços escolares e universitários.

Como a pessoa é aquilo que ela pensa, e ela pensa aquilo que vê e raciocina, se os olhos não desgrudam da tela e ardem quando começa a percorrer as linhas dos livros, sua visão será baseada naquilo que entra em seu cérebro. Estaria errada? Não, pois num mundo relativista como o nosso em que o errado é apenas uma questão  de ponto de vista, não quero que este escrito seja tomado como lição. Antes de consertar os supostos erros alheios, devo cuidar dos meus próprios. Voltemos então ao problema inicial da religiosidade do homem atual em comparação com a do passado.

Para bem da verdade, atualmente não têm ocorrido tantas guerras como no passado. O número de pessoas na época do Império Romano, na Idade Média, ou na época de Hitler era bem menor do que os atuais seis bilhões de almas, nem por isso nos matamos mais, proporcionalmente até menos.

Ivanor-Artigos A religiosidade bonita de alguns homens do passado pode ser contrastada pelo fanatismo de seus contemporâneos e pelo dogmatismo que ceifou muitas vidas em nome da fé. A questão é difícil, mas entre um mundo, digamos mundano, e relativista como o nosso e um mundo fechado e dogmatizado do muito antigamente, parece conveniente suportar as diferenças atuais, mas poder escolher livremente o que se quer ler, assistir e até mesmo para viver mais conscientemente a fé na busca da Salvação.

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