Carta para Vilhena; artigo do professor Ivanor Luiz Guarnieri

2013-10-19T09:22:14+00:0019 outubro, 2013|

Vilhena, foto: Hernán Lagos

Vilhena, foto: Hernán Lagos

Querida Vilhena

Gostei de Ti desde o primeiro momento. A longa viagem e o cansaço daqueles dias não me impediram de apreciar os contornos de tua cidade. Escolhi viver em Ti. Sou, portanto, um estrangeiro em tuas terras, como tantos outros que aqui vieram esperando o reconforto da acolhida e a satisfação de estar entre amigos.

Observo Vilhena, que Tu és rica e jovem. Edificada por mãos calejadas que vieram antes de nós. Forças desbravadoras e corajosas semearam a bela cidade que nasceu em Ti. Generosa em produzir alimentos, tua terra gera também cobiça e, seguramente, já trouxe a morte para alguns. O mosquito da malária e o mais terrível mosquito da dengue ferem, e em alguns casos matam. Embora não haja nada mais belicoso que o próprio homem.

Teus filhos, querida Vilhena, os daqui e os aqui chegados, são operosos. Não o fossem Tu não existirias pujante como mostras ser. Porém eles brigam, disputam e a acolhida, às vezes, peca pelo escândalo da omissão humana. Não poucos sentiram na boca o amargo da fome e no rosto a vergonha do desprezo. A pobreza é gritante e injustificada em uma terra de promissão.

Os mais afortunados quando tem a chance fogem de ti. Por que será? São acusados por alguns de desprezarem-te. Mas, por que se sujeitaram a uma longa jornada de cansaço, apenas para ficar contigo pouco tempo? Que fel beberam nas relações humanas que os levaram a procurar outra terra, onde talvez possam provar das delícias de um ambiente mais doce?

E aqueles que mal conseguem o suficiente para a passagem, perambulam de casa em casa pedindo ajuda, ou se encostam em algum lugar da periferia, aguardando dias melhores que demoram a chegar.

Vilhena Querida Vilhena! É certo que muitos estão bem, engrandecem e aumentam Tuas estatísticas. Aqui ficaram pelo sucesso que alcançaram. Esses se viram por si sós. É com os outros que precisas preocupar-Te Vilhena. Ao irem embora carregam consigo seus talentos, suas esperanças e a possibilidade de ajudar a construir um espaço que é o bem comum de todos os Vilhenenses.

Às vezes tu és cruel Vilhena, despreza os que não suportam certas humilhações, como se a culpa fosse do próprio ofendido. Ao velho estilo do período ditatorial responde a eles com um simples e jocoso “ame-a ou deixe-a”.

Tu já és forte Vilhena e dias promissores mostram os primeiros raios de um amanhecer melhor. Isso depende de como irás continuar apostando na educação. O empenho observado em tuas escolas, feitas por pessoas que todo dia partilham o que sabem e ensinam com carinho nossas crianças, é promessa de uma vida com maior urbanidade e respeito.

Há de chegar o dia em que o diferente deixará de ser visto com animosidade e os iguais como rivais. De nada vale acusar os pobres dizendo que são preguiçosos ou que lhes faltou vontade para estudar. Isso pode servir para aliviar a consciência de alguns abastados, ou dos que ocupam cargos privilegiados, mas não resolve. Além do mais, as crianças, filhas da pobreza, merecem e precisam ser atendidas, já que não é culpa delas a situação de ruína onde nasceram. Cuidar das crianças é cuidar do futuro, como bem sabeis Vilhena, e teu esforço deverá ser ainda maior, para que Tu própria sejas recompensada com uma beleza que vá além do material e alcance a alma de teu povo.

Ivanor-ArtigosSe há em Ti aproveitadores que recebem injustamente o benefício do programa “Bolsa Família”, coíba-os Vilhena. Os pobres precisam desse pequeno dinheiro. Se há recursos sendo mal distribuídos, estanca o vazamento que drena para os bolsos dos mal intencionados. Dá-lhes o castigo da justa punição.

Querida Vilhena, não basta lamentar ou criticar os aproveitadores, eles não se envergonham do que fazem. Se aproveitam dos cargos para impor suas vontades, exigem trabalhos que esgotam o ânimo e retiram todas as forças dos que aqui chegaram cheios de entusiasmo. O clientelismo político deve ser combatido. Por fim, é preciso Justiça, pois sem ela não há esperança e restará apenas, e mais uma vez, despedir-se dos que se vão.

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