Fontes do conhecimento; artigo do professor Ivanor Luiz Guarnieri

2013-10-23T11:20:21+00:0023 outubro, 2013|

Cada pessoa, desde que nasce, procura se apropriar do mundo que gravita ao seu redor, respondendo primeiramente ao desejo de sobreviver e atendendo as primeiras necessidades. Em seguida se vê forçado a adquirir novos conhecimentos e depois outros mais numa sequência que, em princípio, só termina com a morte.

livros[dropcap]A[/dropcap]s marcas do lugar onde a pessoa viveu os primeiros anos ficam gravadas no seu modo de ser. O jeito de falar denuncia a origem do sujeito. Como ele faz as coisas demonstra muito do território onde teve sua formação. Ao expressar-se mostra se é dado a leitura ou se descuida dos livros.

Tais coisas, ligadas ao conhecimento e o modo de ser pessoal, estão cada vez mais misturadas. O acesso à informação livre permite a partilha do mundo do conhecimento, de um mundo mais fácil e rápido de acessar. Houve um tempo, e isso há apenas duas décadas, que adquirir livros dependia da sorte  de morar em uma cidade com boas livrarias ou então era forçoso deslocar-se até uma cidade assim.

Hoje, na rede mundial de computadores, são encontráveis inúmeros textos de grandes teóricos, baixados gratuitamente. O site www.dominiopublico.gov.br, do governo federal, disponibiliza livros on-line, que podem ser baixados em pdf. São obras de filósofos gregos, de sociólogos, e até obras acadêmicas como teses e dissertações.

Adquirir livros tornou-se mais fácil. Grandes livrarias como a “Cultura”, ou o sistema de livrarias de usados, os famosos sebos, reunidos no sitio da “Estante Virtual”, permite acesso rápido a uma variedade enorme de livros antigos ou recém lançados.

De fato, cercado de possibilidades de acesso ao conhecimento, os jovens não tem do que se queixar se comparados com os estudantes do passado. Desde que se motivem por alguma área do conhecimento, as chances de ter uma boa formação na carreira escolhida aumentou significativamente nos últimos tempos. Porém o jovem estudante não pode esquecer que vai concorrer com outros do seu tempo, que também tem acesso ao conhecimento, e, portanto, deve preparar-se ainda mais.

Com relação aos estudos há um primeiro problema que é o da motivação. Enquanto não nascer no coração da própria pessoa o desejo de aperfeiçoar-se ou de iniciar uma carreira, dificilmente ela se encaminhará para os livros. Por que o faria? Estudar depende de um processo interno que chamamos genericamente de aprender. A apreensão das coisas do mundo, isto é, da cultura, depende muito do querer. Ora, o ser humano busca o que quer e quer o que busca conforme a necessidade. Sem necessidade ou sem realizar o impulso para ir ao encontro do que deseja o estudo torna-se algo raro. Sem motivação quase não há estudo no sentido pleno da palavra. Se houver estudo sem motivação, ele será feito com sofrimento e corre sério risco de logo se tornar esquecido.

Desmotivados, profissionais sentam sobre o próprio diploma e nunca mais abrem um livro. Tornam-se desatualizados e acabam vistos como despreparados.

Outra dificuldade são as condições econômicas da família na qual nasceu o estudante. Em quem pese o esforço do governo, concedendo bolsas de estudo e bolsa família, o pouco hábito de leitura afeta o desempenho estudantil. A necessidade de trabalhar consome o tempo. Sem tempo livre para ler, cansado da faina diária, estudar pode ser apenas mais uma obrigação cumprida durante o dia, ou, pior, à noite. Estudar torna-se desgostoso. Se o sono e o cansaço são inimigos do estudo, como bem observou Platão em “A República”, a falta de recursos obriga o jovem a entregar suas melhores horas do dia no trabalho, isso só aumenta a inimizade entre estudo e cansaço.

É paradoxal que o excesso de informações e o acesso a elas possam atrapalhar os estudos. A perda de horas e horas, vasculhando na internet textos que são baixados para não serem lidos, demonstra um pouco dessa outra dificuldade para estudar. As constantes perguntas: “Esse texto que está na internet é confiável?” “Esses dados apresentados são seguros?” revelam também certa angústia na busca pelo conhecimento.

Depois de acessado e baixado o texto, o passo seguinte pode revelar-se doloroso. Deve-se ler na tela ou imprimir? Cada um tem uma maneira própria, mas é evidente que textos lidos na tela do computador dificilmente podem receber comentários ou serem sublinhados. E se puderem, a leitura dos mesmos traz a dificuldade adicional quando se quer fazer a síntese ou fichamento.

Ivanor-ArtigosA tecnologia ajuda muito, mas ainda não substituiu o uso da caneta e papel. A qualidade da informação teórica encontra ainda nos cadernos e livros impressos, e mesmo nas fichas de leitura, um apoio indispensável. Ao afirmar que seus filhos terão computadores, mas antes terão livros, Bill Gates dá uma ideia da importância destes últimos e do que deve estar em primeiro lugar.

Grandes teóricos do passado só tinham livros de papel. Pessoas como Aristóteles, Platão, Descartes que construíram nosso mundo teórico, sequer conheceram máquina de datilografia. O que não fariam hoje com tanto acesso à informação? Uma coisa é certa, não basta ter acesso ao conhecimento é preciso ter inteligência para buscá-lo e discernimento para saber o que fazer com ele.

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