Estou lendo Dermeval Saviani. O nome do livro é “História das ideias pedagógicas no Brasil.” Como é sobre o Brasil, o livro não poderia deixar de dizer algumas coisas a respeito de Portugal, notadamente no período em que o Brasil pertencia àquele país. O livro de Saviani, professor da Unicamp, recebeu o prêmio Jabuti em 2008. Tem problemas no livro, como repetição de citações, citações de segunda mão, repetição de ideias, e, às vezes, o autor se deixa influenciar pela dicção dos textos de época. Bem, obra perfeita só aquela que sai das mãos do Criador. Por isso, eu observo certas nuanças quando estou lendo, procuro tirar o que de bom a obra oferece. E Dermeval Saviani oferece muita coisa boa em seus textos.

Talvez a principal qualidade de um livro é levar o leitor a refletir. “História das ideias pedagógicas no Brasil” me levou a pensar muitas coisas. Tomo, como exemplo, o capítulo 5, no qual Saviani discorre sobre a educação nos tempos da reforma pombalina (século XVIII). A certa altura, o autor compara as ideias do português Antonio Ribeiro Nunes Sanches, com as de Bernard de Mandeville.

Vamos ao ponto da discussão: você acha que os pobres deveriam ter educação escolar? Isso mesmo, amado leitor, pobre tem direito ao ensino? Essa pergunta parece ofensiva. Ora, pois, porque os pobres não deveriam aprender a ler, escrever e contar?

Bem, nos idos de 1780 uma tal pergunta não só não ofendia, como foi adotada, em alguma medida, pelos iluministas portugueses. Iluministas são os homens do passado europeu que afirmam ser necessário o conhecimento para que as luzes do saber se propagassem. Mas nem tanto.

Numa análise da crueldade humana a respeito dos outros, Mandeville afirmava que “em uma nação livre na qual não se permite a escravidão, a riqueza mais segura consiste numa multidão de pobres laboriosos” (Bernard Mandeville. A fábula das abelhas… – citado por Saviani). Essa afirmação deve ser vista sob a ótica da economia política. Na economia é necessário que haja um grupo de pessoas capazes de trabalhar e produzir riqueza. Essa riqueza sustenta toda a sociedade, e, no tempo de Mandeville, Sanches, Pombal, a mão de obra dita braçal era quase tudo na produção de riquezas, já que as máquinas eram muito poucas, se comparado com a atualidade.

Fiquei a pensar no mundo de hoje. Fiquei a pensar no Brasil, em particular. É claro que, hoje, há escolas para todos. Quase todo mundo sabe decifrar as letras, alguns sabem ler razoavelmente, e um grupo ainda mais reduzido consegue até escrever algo inteligível.

Deixemos a ironia de lado, pois ela não convém em assunto tão sério. Digo apenas que a escola que temos não é a mesma para todos. Chego a suspeitar que os mais pobres vão inutilmente para a escola, onde aprendem fragmentos rudimentares de ciências, literatura, matemática. Muitos professores são também filhos da pobreza e estudaram em escolas semelhantes. Graças a seu emprenho e estudo, os professores percebem a importância do ensino. Os mais dedicados se esforçam para educar os filhos dos outros. Mas, não demora muito para sentirem suas forças fraquejarem pelo excessivo esforço. Parece que muitas coisas são colocadas contra o bom ensino. Começo falando da falta de interesse de alguns governos que, ao longo de décadas, preferiram usar verbas de educação para outros fins. Na rubrica educação pode ter sido gasto valores consideráveis em atividades recreativas que nada tem a ver com conhecimento/ciência.

Depois, falo de nós, pais. Nem todos tem conhecimento do dever em ajudar os filhos e como fazê-lo na escola. Ou eu estaria muito equivocado em imaginar que certos progenitores prefiram ver TV ao invés de ir à reunião de pais da escola? Em reuniões escolares tenho visto que a frequência dos pais é de baixa a mais baixa.

Por fim, reflita o amado leitor se não temos hoje uma escola para os pobres e outra para os ricos. Temos, em São Paulo, escolas com mensalidades assombrosas; escolas públicas disputadíssimas como a Dom Pedro II, no Rio de Janeiro e o Colégio Estadual do Paraná, nesse estado. Além disso, por mais que tentem, algumas famílias carentes têm dificuldades em compreender a escola e seus filhos nela. Vou dar um exemplo: em Cascavel – PR, determinada escola (de primeiro ao quinto ano) não podia dar os cadernos e livros para alguns alunos, pois os pais faziam cigarros com as folhas do caderno (claro, eram folhas tão finas que serviam bem para a feitura de cigarros artesanais), ou vendiam livros e cadernos para o reciclável. Teria isso por aqui? Deus me livre e guarde perguntar uma coisa dessas. Mudemos de assunto.

Deixo uma reflexão. Teríamos hoje uma escola que prepara apenas para os ofícios mais simples, e menos remunerados da sociedade, e outros tipos de escola que formam para o sucesso? Se, no Portugal do passado, os mais pobres não deveriam aprender a ler, escrever e contar, tem algo a ver com hoje, no Brasil, quando alguns alunos se formam, mas também não sabem ler, escrever e contar?