Em 2014, quando o Brasil entrou em campo contra a Alemanha jogando no Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, nem o mais pessimista dos pessimistas, nem mesmo nossos hermanos argentinos, nossos maiores rivais no futebol, conseguiam acreditar no que havia se passado. A seleção brasileira de futebol, a maior ganhadora de mundiais, foi humilhada, em casa, pelo placar de 7×1. Desde então, “7×1” passou a ser sinônimo para vergonhas que nós, brasileiros e brasileiras passamos. Seja no futebol ou em qualquer outra esfera pública. Mais do que isso: o “7×1” passou a ser o retrato da nossa falência, não somente no futebol, mas como sociedade. Passamos a não mais acreditar na nossa ginga, habilidade e talento para ganhar partidas. Deixamos, também, de acreditar em projetos, sonhos e no futuro da sociedade. Passamos a valorizar frases de efeito, de autoajuda, de marketing pessoal, de fofocas, de fiscalização sexual, de romances novelescos de quinta categoria de nossos “talentos” do esporte e política nacional, do que valorizar currículos, feitos, ganhos, ou mesmo, perspectivas de melhoria no futuro. Como filhos/as da aceleração do tempo, queremos e vivemos o hoje! O futuro é peça publicitária, que pouco entendemos e deixamos para os experts nos venderem o que acham que será melhor para nós, mesmo que o melhor seja, somente, para eles. Como uma sociedade robotizada, repetimos padrões, jargões e expressões míticas e nada sustentáveis ou saudáveis. E continuamos a tomar goleadas…

Passaram-se quase cinco anos do “7×1” original. A seleção brasileira nada mais ganhou. Tivemos um momento de euforia com o tatiquês do professor Tite. Sua inquestionável competência, não foi párea para os interesses individuais/marqueteiros do menino Ney. A euforia não fora mais do que um sonho, que nos fez acordar com as quedas do Neymar na copa. Na política, tiramos a Dilma e o PT, prendemos o Lula, elegemos o Mito… E assim como a Seleção Brasileira, a lua de mel nada durou, os resultados continuam catastróficos: mais de 13 milhões de desempregados, dólar disparado, combustível nas alturas, saúde no buraco, taxas de violência aumentando todos os dias, principalmente contra a mulher, contra o negro, contra o trans (nos 4 primeiros meses deste ano, batemos recordes em homicídios contra esses três grupos). Na seleção, não discutimos melhorias, mas as caídas eternas do menino Ney. Seja elas em campo, na Sapucaí, ou seus arroubos de violências em estádios europeus. Na política, preocupa-se mais em fiscalizar a sexualidade alheia, na ideologização da educação para combater a… (pseudo) ideologia da educação, na segurança, festejamos a liberação da violência para combater a… violência. Enquanto isso, esperamos a Reforma da Previdência, para que dias melhores apareçam. Assim como, depois da Copa de 2014, esperamos a de 2018, e aguardamos a de 2022. Sem saber o que tudo isso significa. Não sabemos o que é o futuro, não entendemos o futuro, somente consumimos o presente. E o nosso presente nos presenteia todo dia com um “novo”, que mais parece velho, “7×1”. Para assisti-lo, bastar abrir sites de notícias, facebook, aquele seu grupo de whatsapp de fakenews, o mesmo que você se informou para escolher o seu candidato a presidente, ou, se quiser ir à fonte: basta abrir o Twitter do Messias do nosso tempo e verá o “7×1” diário.

Mauro Alcântara

Um professor, tentando manter a lucidez e saúde mental, para os dias de baixa luminosidade e grande opacidade que vivemos. Somente a possibilidade de escrever e extravasar a angústia liberta àqueles/as que pensam neste mundo robotizado.