O aluno é o culpado? Artigo do historiador Emmanoel Gomes

2013-11-24T01:08:37+00:0022 novembro, 2013|

Vivemos um momento complicadíssimo nas escolas brasileiras e esse momento é marcado por uma “suposta” falta de interesse generalizado dos nossos alunos em relação aos estudos.

desmotivados[dropcap]M[/dropcap]uitos alunos reclamam que estudam muito e não aprendem, outros, por vários motivos, não conseguem estudar, logo acabam por receber notas muito baixas passam nas últimas ou são reprovados. Ainda existem aqueles que criaram uma série de bloqueios e inviabilizam o aprendizado.

Em geral, os alunos, relatam uma infinidade de problemas que prejudicam e atrapalham o processo de aprendizado e os estudos.

Gostaria de convidar todas as pessoas, de todas as idades, para um diálogo simples e sincero sobre o universo da aprendizagem. Após duas décadas atuando em sala de aula, com alunos entre a alfabetização e a universidade, acredito poder lançar alguma luz sobre essa problemática bastante comum aos nossos dias.

Primeira coisa, e nada animadora, é que essa é uma realidade muito comum entre nosso alunado. Nos conselhos de classe, os professores apontam em meio a quarenta alunos de uma mesma sala, um reduzido número de alunos estudiosos, educados e comprometidos com os estudos. Estimo que de cada sala com quarenta alunos, apenas cinco são apontados como estudiosos, educados e comprometidos com os estudos.

É comum jogar toda a culpa no aluno, responsabilizá-lo em função das horas e horas na internet. Invocar o desmantelamento dos valores culturais e sociais, culpar as famílias desestruturadas por tal quadro etc, etc, etc.

A sociedade brasileira vive uma crise social desde sempre e em todas as áreas. Não temos um problema hoje, os problemas são antigos e falta um diagnóstico responsável, sério que dê origem a remédios com eficácia.

Em geral, as soluções são aquelas que interessam aos desejos políticos de grupos que estão no poder e querem se perpetuar, esses vivem por maquiar as realidades para saírem bem na fotografia. Encaminham propostas com “soluções” que não alteram em nada a realidade escolar e na maioria das vezes colaboram com a manutenção ou aumento do problema.

Uma dessas soluções é a tal democratização das escolas, com eleições para diretores e vice-diretores. Essa ideia retira a autoridade dos professores e demais profissionais da educação, a comunidade representada por pais e alunos passam a interferir na escola de forma profunda, é como um paciente discutindo com o médico sobre qual remédio tomar ou um passageiro ensinando o motorista ou piloto de avião como guiar a máquina.

No Brasil elegemos prefeitos, vereadores, deputados, governadores e presidente, qual o resultado de tanta democracia? Tenho respondido a essa pergunta da seguinte forma: Democracia é bom quando as pessoas são preparadas para ela, entre povo com sérias deficiências culturais a discussão gira em torno da seguinte ideia, o que eu ganho com isso? Temos a realidade social que temos… Não discutimos projetos para a maioria, os projetos atendem geralmente aos interesses particulares de indivíduos ou de grupos.

A escola deve ser dirigida por quem tiver a formação adequada, a direção se escolhida que seja por pessoas também com formação para tal e pronto.

Com relação ao estudo aprendizagem devemos avançar muito, pois as escolas brasileiras ensinam como se o mundo tivesse estacionado na década de setenta, os professores ensinam os cálculos matemáticos em sala de aula sem se darem conta de que todos os alunos possuem um celular com uma tecnologia mil vezes à frente do lápis, caneta e borracha. Todos os alunos, inclusive os que se formarão em matemática, quando precisarem, vão recorrer a essa tecnologia.

Professores de todas as áreas não perceberam a necessidade de se adequar as novas realidades que continuamente surgem.

A escola, em seu atual estágio, é realmente algo muito entediante, chata e cansativa. Enquanto nós professores não inovarmos, buscarmos inspiração, criatividade e novas metodologias, o quadro vai piorar.

A sala de aula deve ser um espaço sem pressões e opressões, devemos ser capazes de criar um clima de cumplicidade com a inteligência, arte e saber. O aprendizado deve acontecer de forma em que cada passo dado pelos atores do processo se encantem rumo ao acúmulo de mais saberes.

Nós professores precisamos acreditar e fazer nossos alunos acreditarem na possibilidade de os transformarmos em grandes seres humanos, cultos, civilizados, éticos e justos.

Será que acreditamos em nossa capacidade de influenciarmos nossos alunos para que se tornem seres humanos melhores? Será que cada vez que adentramos no mágico palco do ensino e aprendizagem, com todos os holofotes ligados em direção a cultura, as salas de aula do Brasil, vibramos e fazemos vibrar os nossos alunos em função dos novos conhecimentos que são despejados a cada quarenta e cinco minutos?

Será que, nós professores, estudamos e pesquisamos o suficiente para enfrentarmos tamanho desafio?

Emmanoel-Gomes-ArtigosO ensino médio não prepara o aluno para nada. Na atualidade o aluno vive com medo de não passar e atrasar sua vida, estuda para superar essa fase e depois se preocupa com o ENEM.

Logo que sai do ensino médio corre para o Pré-Vestibular, denunciando a incompetência do ensino médio e de todos que o mantém. O ensino médio deveria focar muito mais a possibilidade desse aluno passar para um vestibular.

O fato é que o quadro de desinteresse dos nossos alunos na verdade é um sintoma gravíssimo que denuncia nossa pobre atuação.

Um comentario

  1. U. 2 janeiro, 2014 at 7:10 pm

    É exatamente assim, os alunos dispersos e despreocupados ou sem conceito de cidadania são apenas espelhos de professores mal preparados, professores que cobram pesquisas de seus alunos, as quais tais mestres nunca tinham feito. Todo dia ouvimos a pergunta de qual a solução para a educação brasileira. Cotas, ensino pré vestibular, ou até o sucesso estrondoso das escolas particulares, são atestados do fracasso do ensino público desse país. Achei completamente coerente e realista seu texto, professor, gostei muito.

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