O homem e a letra; artigo do professor Ivanor Luiz Guarnieri

2013-11-14T09:34:28+00:0014 novembro, 2013|

livroEMMANOEL(1)Conta-nos Platão de uma história antiga, segundo a qual teria sido o deus Toth, cultuado pelos egípcios, quem ensinou os homens a escrever. Até então contar história era uma questão de memória, repassá-la era ainda mais dependente de cérebros capazes de rememorar ditos antigos.

Depois de inventada a escrita pelos mesopotâmios, egípcios e outras civilizações, a palavra pôde ser aprisionada em sinais gráficos, e, assim, ser conduzida para vários lugares, presa ao papel, ou a rolos de papiro.

O livro, como nós o conhecemos, é uma invenção de um santo da Igreja Católica. São Jerônimo (342-420) e seu zelo pelas letras, criador do Códice. Manuscrito ainda, endereçado aos amigos frades a quem prezava partilhar seus conhecimentos e estudos.

O homem pouco seria sem esse precioso aliado. O livro instrui e comunica. Paciente, espera na estante até que alguém o abra para então começar a falar. Instrui, emociona, diverte e, como outros amigos, às vezes, também entedia, quando a leitura é uma obrigação, e não por vivo interesse, feita por uma razão externa, como uma prova ou trabalho escolar.

Paixão é uma palavra de origem grega pathos, que significa doença. Estar apaixonado é adoecer pelo objeto de desejo. Mas é uma boa doença essa de apaixonar-se por livros. Estar cativado pelos livros é querer conhecer o mundo conhecendo-se a si mesmo através da leitura. O mundo de outras pessoas, transcrito no papel, partilhado com o leitor, alimenta os homens mutuamente.

Pensei nessas coisas ao contemplar com vivo interesse um evento edificante. Vou contar o que vi no Edifício Capra, aqui em Vilhena, numa sexta-feira de julho de 2011.

 Homens de preto, sinal da elegância que exuberava naquele recinto, se moviam animados em um espaço centralizado. Um microfone, música ao vivo e viva, translúcida em vários momentos, pois além de bem escolhidas, executadas com maestria.

Poemas, sim, poemas. Não daqueles poemas famosos, que estão nos livros escolares e cujos autores são velhos conhecidos dos acadêmicos. Mas poemas com cheiro da terra e frescor da mata. Frutos do esforço inicial do poeta, que logo se transforma em torrente de inspiração para dizer, de modo simples, e por isso agradável, o que vai à alma.

O que conduziram aquelas pessoas, e a mim também, é o bom amigo Livro. De fato, o evento atingia em alguns momentos o sentido de celebração. Discursos se sucediam. Tudo em torno da obra e da vida. A obra: “Rondônia: a terra que se fez Eldorado para todos os seus filhos”, escrita por Emmanoel Gomes, com a colaboração de Hugo Silva e ilustrações de Mikéliton. A vida dos autores que se colocam como presença e criaram a obra, e a vida de muitos que figuram no transcurso da história rondoniana sobre a qual vivemos.

O discurso de Emmanoel Gomes figurou entre emocionado e lúcido, como é próprio dos que sabem o que dizem. Humilde alertou que a obra não é só sua. Grande verdade. Livro nenhum é só de um autor, pois quem escreve bebeu em outros livros, outras fontes e documentos. Mas é de Emmanoel sim, que num lampejo de sabedoria feliz decidiu executar o projeto.

O livro é ricamente ilustrado, suavemente escrito, é destinado à família, e, principalmente às crianças. Quem tomá-lo nas mãos, e deslizar os olhos no colorido papel, perceberá um conjunto que vai do espaço, com a bela imagem do planeta Terra, até alguns detalhes da história de Rondônia. Transcorrer a obra para ler; mais que isso, “Rondônia”, de Emmanoel Gomes, é um passeio no qual é possível contemplar imagens e sons. O efeito da mistura de ilustrações e palavras dá isso, imagens e sons de um tempo que é também o nosso. “Guaporé Rubber Company”, “Madeira Mamoré”, “Abinael Machado”, “BR-364” e tantos outros nomes, expressões, lugares, pessoas, aparecem na paisagem que se desdobra em cada página que conta um pouco dessa terra, carinhosamente chamada pelo autor de “Eldorado”.

Ivanor-ArtigosA Academia Vilhenense de Letras, os amigos e convidados tiveram uma noite agradabilíssima, que girou em torno do livro e seus autores. Prova de que, desde sua invenção, a escrita pode congregar homens em função do que é belo e grandioso. Homens simples e lúcidos, conhecedores do passado e com visão de futuro que, com seu trabalho e suas obras ajudam a construir a grandeza de Nossa Terra. Terra que, como os livros, só é possível gostar se a conhecer. Eis uma das grandes contribuições de “Rondônia” de nosso amabilíssimo autor.

6 comentarios

  1. Jaira Amália 14 novembro, 2013 at 1:16 pm

    Professor Evanor, fico feliz por encontrar uma pessoa nessa cidade que tão sabiamente colabora com a cultura local e escapa da idéia de se valorizar somente as coisas de fora ou de outras regiões. Sou professora e já assisti palestras do professor Emanoel aqui em Ji-Paraná. Posso afirmar que não vi ninguém com a capacidade dele. Até hoje me utilizo de algumas frases dele em minhas aulas. Não sou próxima dele, Vilhena está dando um banho em minha cidade por causa de pessoas como ele e o senhor. Leio sempre seus artigos. Fiquei um tempo perdida por causa da mudança de site. Hoje leio e parabenizo o senhor e o professor Emanoel. O livro em questão ajuda e muito meu trabalho. Obrigada Professor por promover um trabalho local tão lindo.

  2. Amarildo 14 novembro, 2013 at 2:55 pm

    Professor muito bom! O Emmanoel é um orgulho para nossa cidade e Estado.

  3. Emmanoel Gomes 14 novembro, 2013 at 6:00 pm

    Grande mestre, obrigado pela homenagem. Vivemos em um país onde a arte e cultura vivem uma profunda crise. A banalização dos valores éticos e morais colaboram para o surgimento de um modelo artístico popular e de massas de profundo mal gosto. O tenho como um grande parceiro em prol de uma militância em favor das grandiosidades artísticas. Sinto orgulho dessa amizade. Obrigado pelas palavras, saiba que sua contribuição no campo acadêmico e dentro da sociedade é grandiosa e reconhecida por muitos.

  4. Ivanor 17 novembro, 2013 at 9:15 am

    Obrigado Jaira. É muito bom conhecer o trabalho do professor Emmanoel, que além de devotado à cultura de Rondônia, é uma pessoa muito agradável.
    Grato,
    Ivanor

  5. Ivanor 17 novembro, 2013 at 9:16 am

    Obrigado Amarildo

    Além de seus escritos instigantes, que levam a reflexão, o Professor Emmanoel é também muito querido de nós todos que gostamos de Rondônia.

    Abração,
    Grato,
    Ivanor

  6. Ivanor 17 novembro, 2013 at 9:20 am

    Obrigado Professor.

    Aos poucos, e acolhendo os que vem de longe e descobrem a grandiosidade de Rondônia, sua gente e sua cultura, podemos ter novas luzes sobre nós mesmos. Essas luzes são o conhecimento que é gerado pela pesquisa e pela divulgação que se faz em livros, palestras e aulas.
    Por isso, é muito bom conhecer Vosso trabalho.

    Abração,
    Grato,
    Ivanor

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