Na semana passada uma aluna do fundamental tentou suicídio. Ela não chegou em casa e foram atrás dela. A encontraram se amarrando numa árvore para se enforcar. Vítima de bullying

Cidinha Barbosa dos Reis

Cidinha Barbosa dos Reis

[dropcap]F[/dropcap]ormada em Letras, a professora Cidinha Barbosa dos Reis é professora há 26 anos e está em Vilhena há 5 anos, em 2008 incursionou em campanhas e projetos de conscientização, primeiro foi doação de brinquedos, Natal, alimentação, sempre engajada em causas sociais. Em 2012 realizou a campanha contra a violência sexual “Abrace mais, machuque menos”, conseguindo mais de 100 denúncias em Vilhena. Essa campanha foi copiada e repetida pela Universidade da Bahia e também teve bons resultados.

Em 2011, devido a casos específicos de bullying da escola Álvares de Azevedo onde ela leciona, resolveu abraçar a causa e o primeiro trabalho realizado teve bons resultados, por tanto foi decido transformá-lo em um projeto. Foi produzido o material e feito um levantamento dos casos de bullying na nossa sociedade, um trabalho difícil devido a ser um problema praticamente invisível.

Desde então todos os anos o projeto é aplicado na escola no começo do ano letivo, dando palestras a todos os alunos. Graças aos resultados outras escolas, como a Genival Nunes passaram a buscá-la para identificar casos de bullying e intervir. Foram detectados muitos casos e resolvidos com resultados positivos imediatos de mais de 50%, afirma Cidinha. O problema afeta a todas as camadas sociais, nem a elite se salva.

DSCN1141“Na semana passada uma aluna do fundamental tentou suicídio. Ela não chegou em casa e foram atrás dela. A encontraram se amarrando numa árvore para se enforcar. Vítima de bullying”, explica.

Na escola Genival Nunes, onde Cidinha palestra, percebeu que uma criança negra nunca levantava os olhos, aproximou-se e indagou porque fazia isso. Os colegas da aula disseram que todo dia que ele sai de casa escuta fumaça, tição, carvão, ele não fala com ninguém não conversa, não sai para o recreio, nem para merendar. Depois ele contou para a professora que além do Bullying seu pai espanca sua mãe, ele já foi preso por causa de envolvimento com drogas. “Se eu pudesse, eu não vinha para a escola, lá pelo menos eu apanho, mas fico escondido”, disse a vítima. Os colegas só ficaram disso naquele dia, após quatro anos de convívio.

Há dois anos, houve outro caso grave na Escola Álvares de Azevedo, um garoto do sexto ano era chantageado e todo dia devia dar um ou dois reais para o chantagista, ele era ameaçado de ser espancado na hora da saída. Um dia esqueceu, comeu um lanche e gastou o dinheiro, com medo, procurou os professores. O chantagista, era muito menor em tamanho. O menino chantageado já sofria bullying desde pequeno e foi vítima fácil, não sabia se defender. A vítima de bullying só reage para acabar com a própria vida ou para acabar com muitos como aconteceu em Realengo. Muitos passam a se cortar nos lugares onde a roupa cobre, quando sangram sentem alívio.

DSCN1139“Usando a linguagem simbólica, eu tenho aqui uma árvore e todas as árvores perdem as folhas, então vamos supor que esta árvore é um ser humano, cada vez sofre bullying ele perde uma folha. Um menino resolve passar máquina zero e a carequinha fica brilhando a céu aberto, aí passa outro metido a besta e tira sarro dele: e aí ô aeroporto de urubu, carequinha, bola de cristal. Outro resolve usar roupas diferentes, cabelos coloridos, penteados radicais. Todo mundo acha graça. Eles sofrem o tempo todo. Tudo isso é agressão é bullying, essa situação é humilhante para a pessoa que ouve, a machuca por dentro, só que a pessoa que fala, se acha o tal, o engraçadinho, que faz todas essas agressões todos os dias, após falar esquece, fica na boa, mas aquela pessoa que está sendo vitimada todos os dias, está sendo alvo fácil, está sofrendo, cada palavra que ouve o deixa ferido e vai acumulando”, explica Cidinha aos alunos.

DSCN1143Hoje a internet é um campo fértil para realizar bullying, qualquer celular pode gravar um vídeo ou tirar um foto e postá-lo no Facebook usando “fakes” ou surrupiando senhas e escrevendo mensagens em nome de outros.

“Quem pratica o bullying sente satisfação, porque todos acham engraçado, mas na verdade é uma falsa sensação de poder. Ele faz isso tudo para disfarçar que é uma pessoa frágil, no fundo é tudo uma farsa”, finaliza Cidinha.

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[tab title=”Rondônia em pauta”]Autor: Hernán Lagos[/tab]
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