O gargalo do pós-porteira

2013-06-28T16:06:11+00:0004 junho, 2013|

Brasil perde bilhões de reais com a sua precária malha viária, seus poucos e ineficazes portos e sua insistência em manter o transporte rodoviário como principal meio de escoamento da produção agrícola nacional

Marcus Fernando Fiori
(Especial para o Rondônia em Pauta)

[dropcap]O[/dropcap] Brasil está apresentando ao mundo números robustos em relação à sua safra de grãos 2012/2013. Pela primeira vez o país está rompendo a marca dos 184 milhões de toneladas, o que já está sendo chamado pelos especialistas de “super safra”. Apesar de alguns percalços climáticos, o aumento da área de plantio alçou o Brasil à condição de maior exportador de soja do mundo, um feito histórico, visto que pela primeira vez vai superar os Estados Unidos nesse quesito. Como se observa, as coisas estão indo muito bem nas fazendas. Infelizmente o mesmo não pode ser dito no pós-porteira. Grande parte do que se ganha na propriedade rural se perde entre ela e os portos. Os velhos problemas de infraestrutura que atormentam os produtores brasileiros desde os anos 80 desta vez mostram a sua cara com mais força por conta da super safra, que está estrangulando ainda mais a já sufocada logística nacional.

O porto de Porto Velho é o canal, entretanto, depende da iniciativa privada, uma vez que o governo não investe. Grupos privados tentam viabilizar esse canal de escoamento da produção de Rondônia e Mato Grosso

O porto de Porto Velho é o canal, entretanto, depende da iniciativa privada, uma vez que o governo não investe. Grupos privados tentam viabilizar esse canal de escoamento da produção de Rondônia e Mato Grosso

            “O gargalo está entre a porteira e o porão dos navios”, avalia o pesquisador da Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – em Rondônia, Vicente Godinho. Na prática, a produção brasileira vem crescendo aceleradamente desde os anos de 1980. A infraestrutura, porém, não acompanhou esse movimento. Conclusão: congestionamento nas estradas, congestionamento nos portos, encarecimento do transporte e muitas perdas para o produtor rural.

            Num cenário em que o incremento da produção não foi acompanhado pela geração de infraestrutura, o futuro se torna ainda mais nebuloso quando se leva em conta que qualquer avanço depende essencialmente de ações governamentais. Assim, tudo depende do governo e de sua fabulosa burocracia. A resistência do governo em permitir a entrada de empresas privadas no setor por questões ideológicas e as limitações ambientais, que praticamente param o Brasil quando o assunto é infraestrutura, são apenas dois exemplos de gargalos para a produção agrícola nacional.

 Logística-02           RONDÔNIA – Uma das melhores logísticas de escoamento de grãos do Brasil encontra-se em solo rondoniense: a BR-364. A rodovia, apesar do tráfego intenso, ainda não se encontra congestionada e o porto de Porto Velho, com sua capacidade para receber algo em torno de 400 caminhões/dia, também não se encontra (ainda!) em situação de estrangulamento. Mas é sabido que o porto da capital opera no limite da sua capacidade, uma vez que escoa a soja produzida em Rondônia e no noroeste de Mato Grosso. De Porto Velho, a produção segue pelas hidrovias dos rios Madeira e Amazonas diretamente para o mercado internacional.

            Mas o cenário também não é bom por aqui. Para suprir a demanda, seria necessário dobrar o número de carretas trafegando pela BR-364 – a rodovia não suportaria tal movimento. Além disso, o porto de Porto Velho, além de ser pequeno, durante grande parte do ano apresenta níveis muito baixos de suas águas, o que inviabiliza a navegação de cargueiros. Há projetos de ampliação do porto, entretanto, há mais de dez anos as obras não se concluem por questões relacionadas a licenciamento ambiental.

A BR-364, embora ainda não seja uma rodovia ‘estrangulada’, é um corredor de escoamento da soja que vive à mercê da boa vontade de São Pedro

A BR-364, embora ainda não seja uma rodovia ‘estrangulada’, é um corredor de escoamento da soja que vive à mercê da boa vontade de São Pedro

            PROBLEMA NACIONAL – Apesar do sucesso da produção nacional nas fazendas, a falta de estradas e portos para escoar a produção está afetando a rentabilidade do produtor e causando prejuízos a toda cadeia produtiva. O porto de Santos está com congestionamento de até 80 navios que ficam parados durante vários dias. Na estrada de acesso ao porto, 4.600 caminhões ficam parados à espera de uma chance de descarregar. O congestionamento atinge 30 quilômetros.

            Todos os anos a situação é de caos durante o período de colheita. Este ano, porém, as coisas estão piores por conta da super safra. Qualquer movimentação acima da esperada tumultua toda a cadeia de escoamento. Para se ter uma idéia, 4,5 milhões de toneladas a mais de milho foram alocadas para exportação. Isso significou 15.400 caminhões extras para fazer o transporte. O que era ruim ficou ainda pior com esse excedente nas estradas.

            Com tantos problemas logísticos e registrando atrasos na entrega da produção, a soja brasileira está sofrendo deságio que varia de 3% a 4% no mercado internacional Como não há silos para armazenar toda a produção, grande parte dela deve ser escoada tão logo é colhida. Como o Brasil não dispõe de hidrovias e ferrovias, todo o transporte acaba sendo feito pelas rodovias. A capacidade dos portos, por sua vez, é bem inferior à quantidade de carretas que chegam durante a colheita.

            Navios atracados à espera da carga, caminhões parados à espera da descarga. Tudo isso tem um custo e, em última instância, acaba recaindo sobre o produtor. É assim que o produtor brasileiro tem uma série de encargos extras que o seu concorrente nos Estados Unidos não tem. O custo de produção da soja é similar nos dois países, mas o sojicultor brasileiro estrangula seus ganhos ao gastar muito mais com transporte.

            O custo da soja no porto é de US$ 400 a tonelada no Brasil e nos Estados Unidos. Ao se analisar a composição deste custo, porém, percebe-se a distorção nos ganhos dos produtores dos dois países.  O frete da fazenda ao porto sai por US$ 128 no Brasil (rodoviário) e US$ 38 nos EUA (rodoviário e hidroviário). O custo de produção no Brasil é de US$ 230, enquanto nos EUA é de US$ 197. Resumo da ópera: enquanto o produtor nacional tem uma receita líquida de US$ 82 por tonelada de soja, o seu concorrente norte-americano fatura até US$ 205 pela mesma operação.

            O Brasil gastou R$ 530 bilhões com transporte e armazenagem de grãos no ano passado. Se o país tivesse uma logística adequada, a exemplo dos EUA, esse custo cairia para R$ 350 bilhões – economia de R$ 180 bilhões/ano. No caso rondoniense, a distância entre a fazenda e o porto de escoamento é relativamente pequena e não há congestionamentos nas estradas e porto. O custo de escoamento, portanto é bem menor. Essa economia não é repassada ao produtor. Ela é toda diluída na cadeia logística, passando ao largo da cadeia produtiva. Durma-se com essa.

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[tab title=”Rondônia Em Pauta”]Grande Reportagem[/tab]
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2 comentarios

  1. capataz 4 junho, 2013 at 2:51 pm

    e A FERROVIA QUE TAVA VINDO,PRA RONDONIA ,CADE??

  2. Flávio 4 junho, 2013 at 5:07 pm

    Que ferrovia meu amigo? pelo que ei saiba, essa ferrovia só ficou no papel mesmo.

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