Pandemia escancarou as desigualdades na corrida por boas notas no exame. As provas serão aplicadas em janeiro e fevereiro de 2021.

Provas do segundo dia do Enem 2019 — Foto: Ana Carolina Moreno/G1

Provas do segundo dia do Enem 2019 — Foto: Ana Carolina Moreno/G1

A pandemia do novo coronavírus multiplicou os desafios da educação em Rondônia e adicionou problemas para quem tem o sonho de ingressar no ensino superior, como é o caso de Noêmia Sampaio de Castro, de 44 anos, moradora de Porto Velho. Ela passou 14 anos sem estudar e atualmente, junto com os filhos adolescentes, usa um tablet para assistir vídeo-aulas.

Os três se preparam para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que teve as provas marcadas para janeiro e fevereiro de 2021. Noêmia sempre estudou em escola pública e acompanha as aulas gratuitas do cursinho Pré-Enem Municipal, ela deseja cursar psicologia.

“No início foi bem difícil, pois não tínhamos acesso à internet. Quando conseguimos um Wi-Fi emprestado da minha irmã só tínhamos um celular. E além dos meus filhos que tem que estudar pro Enem, tenho uma adolescente que está no nono ano e também precisa pra assistir as aulas dela. Fizemos um esforço e consegui comprar um tablet”, comenta Noêmia.

As dificuldades para lidar com a nova realidade também são sentidas no distrito de Extrema (RO). Mariana Costa Fratari, de 16 anos, está terminando o 3° ano do ensino médio e se prepara para o Enem através de cursos gratuitos online.

Ela se sente privilegiada em ter computador e internet em casa, que neste momento é considerado o básico para continuar estudando.

“Essa crise evidencia cada vez mais a desigualdade social e econômica entre diferentes grupos de estudantes, sejam de escolas públicas, privadas ou que já concluíram o ensino médio”, diz Mariana.

A autocobrança e a pressão pela produtividade — mesmo em meio a uma pandemia — traz ainda mais inquietações a jovens como Isabelle Rodrigues Ubiali, que pretende cursar medicina e Ana Beatriz Reis que tem relações internacionais e direito como opções de curso. Ambas apresentam dificuldades para manter o foco e estudar em casa. Até Gianluca Pessoa, de 16 anos, que fará o Enem como treineiro se cobra por um melhor desempenho.

“Não me sinto tão preparada para a prova, como poderia estar?”, se questiona Ana Beatriz.

Do outro lado do processo de ensino-aprendizagem, os professores precisam de muito empenho e esforço diário para se adaptarem a nova didática. Com as aulas à distância, a docente de História Elis Oliveira, teve de aprender a editar vídeos, áudios, programar transmissões, agendar postagens, manusear softwares e alterar hardwares para melhor adequar a casa e equipamentos à nova rotina.

A professora já encarou mais de 100 dias letivos em quarentena, entre uma aula e outra surgem as incertezas perante o avanço da doença, número de mortes e vários decretos do Governo que exigem preparo emocional.

“Não é qualquer educação que devemos construir e precisamos reconhecer que a educação à distancia, no Brasil, ainda não inclui todas as pessoas. A educação é, como há muito tem provado, o sopro de liberdade e alegria para jovens de tantas idades e realidades. É nossa responsabilidade compreender os diversos desafios que este novo momento nos exige. Mas, apesar de todas as dificuldades, em meio a tantas dores, a tantas mortes e tristezas, acreditar na educação é o que me mantém com esperanças”, acredita Elis.

O professor de biologia, Samuel Soares, também divide as angústias da profissão. Para ele, a pouca qualidade da internet que os estudantes e docentes têm acesso é um fator limitante. Isso aliado ao cansaço de alguns alunos que estão, também, correndo atrás do sustento entre outras coisas.

Enem 2021

Enem 2020 será adiado por causa da pandemia no coronavírus — Foto: André Melo Andrade/Myphoto Press/Estadão Conteúdo

Enem 2020 será adiado por causa da pandemia no coronavírus — Foto: André Melo Andrade/Myphoto Press/Estadão Conteúdo

Perguntados sobre a próxima edição do Enem, os professores entrevistados pelo G1 criticaram o Ministério da Educação (MEC) por propor uma enquete para saber a “opinião popular” sobre a data do exame, e na contramão do resultado escolheram janeiro para aplicação das provas.

“O Enem, neste cenário, precisa ser muito bem refletido, não apenas em suas datas, como ainda em seu significado e valor para a sociedade. Longe de mim apontar o caminho perfeito, mas talvez a solução não esteja exatamente na data e nem na prova, e sim na reflexão das bases do novo modelo educacional brasileiro. Muita coisa mudou e será que estamos pensando nas soluções para os novos problemas ou encontrando caminhos para um mundo que não existe mais?”, destaca Elis.

Por Ana Kézia Gomes, G1 RO