Emmanoel Gomes.

UM APROFUNDAMENTO NO CAMINHO DE PESSOA

Tente sair da prisão onde você se trancou?

Tente realizar os desejos de amor selvagem…

Incontidos nas entranhas do seu coração?

Diga as verdades que sempre pararam na ponta da sua língua?

Não. Não. Você não consegue!

Você se entregou covardemente a sua fria masmorra.

Sua ideologia religiosa são os tijolos da muralha que te prende.

A moralidade hipócrita de sua sociedade o cimento.

A ética familiar a argamassa.

A subordinação cultural o alicerce.

Tu não tens como escapar. Foste o perfeito arquiteto de sua prisão.

Nunca serás maior que um nada…

Os sentimentos proibidos escondidos em seu miúdo ser…

Nunca serão vividos.

As amarras da família cristã, patriarcal, ocidental te impedem.

A vontade de ser você, não existe.

Tu és igual a todos, triste, depressivo, arrogante, egoísta, negativo e feio, muito feio!

Nunca realizarás as vontades escondidas em sua intimidade.

O Estado e sua ideologia a “ordem e o progresso” não permitirão.

Você nunca vai beijar ou morder outra boca, outro corpo como se fosse uma louca libertina em busca do real prazer.

Nunca entregará o corpo como uma perdida…

Não irá se lambuzar no mel para ser lambida por uma língua sedenta, profundamente faminta de ti.

Tudo de diferente, humano em você é mentiroso, está escondido em seu triste e pobre porão…

O maridão, macho pra caralho, a esposa feminista, fria e tranquila, o namorado burguês a namorada na coleira… Jamais permitirão.

O filho arrogante imbecil, formado pela rede bosta de televisão manda em você! Você vive para servir aos monstros que criou, alimentou e hoje… Te devoram um pouco a cada dia de sua desgraçada existência.

Um simples banho pelado na chuva, com o corpo exposto ao tempo aos olhares, libidinosos… Maliciosos… Não. Nunca. Você construiu sua prisão, não vive, não respira o ar da liberdade do mundo livre e eterno.

Esqueça as fantasias que vez ou outra invadem seus pequenos momentos de busca pelo humano, os mistérios e desejos escondidos em seu ser…Tristonho ser.

Aceite… Tu és José… Zé, Maria, Raimundo, João, Severino, você é a massa que alimenta as mazelas existentes no mundo e em você… Você é um frouxo, uma simples, pobre e desgraçada Amélia.

Viva no papel que te determinaram, impuseram, ditaram… E tu acataste.

Ameba… Parasita… Você foi quem escolheu você é dono de todas as suas culpas.

Imagem e semelhança divina? Nunca… Você não se permitiu ser nada disso!

Todos os deuses possuem essência rebelde, anárquica, libertina!

Somos uma grande vergonha para quantos deuses existam nesse e em todos os mundos…

O nosso pobre Deus… Já até pregamos na cruz, somos bons em coisas como fazer medo, angústia, sofrimento, dor, tortura.

No nosso Curriculum de horror, algumas guerras, numa delas matamos mais de sessenta milhões de gentes. Criancinhas como os nossos filhos, cheirosos, penteados, foram mais de dez milhões somente nessa ocasião.

Suas chaves, travas, correntes, cadeados, te limitam a insignificância do nada.

Eita… Mais eu tenho um carrão, um casarão, uma mulher com silicone e ar de senhora, madame decadente que sabe ser, um trágico erro, nos mais variados planos divinos e celestiais…

Que pena…

Todos nós temos tanto, tanto e não somos nada.

Como é trágico esse negócio do não ser…

Tu fizeste esta prisão, entrou e jogou a chave fora e estranhamente descobriu…

Que a vida… Essa coisinha que nos faz embalar pra lá e pra cá, sem rumo e sem sentido… Esse negócio que sopramos por nossas ventas … que cada um de nós temos, por mais miseráveis que somos…

Essa vida.

É uma só.

Não sabemos de onde veio, muito menos para onde vai.

 É única…

Se não viver suas rebeldias, neuroses seus devaneios, não viveu. Simplesmente existiu, assim como parasitas, amebas, baratas e ratos. Perdeu a oportunidade fantástica oferecida pelo acaso. A possibilidade de ferir com ranhuras profundas o mundo que te cercou por tão pouco tempo.

O acaso esse extraordinário fenômeno que nos permite estar aqui, não repetirá o mesmo erro, enquanto estais vivos, não perca a oportunidade única e inexorável de marcar a ferro e fogo sua passagem por esse mundo.

tempoTEMPO.