História recente de Rondônia; artigo do historiador Emmanoel Gomes

2013-09-19T16:40:30+00:0019 setembro, 2013|

E se definitivamente a sociedade só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo, és um estorvo, és um tumor
Que Deus te proteja
És preso comum
Na cela faltava esse um!

CHICO BUARQUE DE OLANDA

A evolução política e administrativa do que se tornaria em 1981 o mais novo Estado da Federação foi montada durante a ditadura militar ocorrida entre os anos de 1964 e 1985.

[dropcap]O[/dropcap]s Governos Militares, apesar dos esforços, não conseguiram montar uma estrutura que pudesse oferecer o apoio necessário aos colonos que chegavam aos milhares nas “novas” terras. Não existiam órgãos com servidores capacitados, hospitais, escolas, estradas etc. Um dos homens que participou do inicio da colonização recente de Rondônia o capitão Silvio, grande figura histórica deste momento, afirmava de forma enérgica, “servidor, nós pegamos no laço”, lembro-me de sua figura firme, forte e decidida.

Eu morava em Colorado do Oeste quando ainda era chamado de 21. As famílias iam chegando e ocupando as “Vilas do INCRA” nas terras de Rondon como afirmara meio século antes Roquete Pinto.

lembro-me bem do Eustáquio do Jovenário, Chico do Jerico e do Fernandão, um personagem importante nessas terras era o Assis Canuto, que percorreu toda a região que compreendia o então território, prestando importantes serviços ao futuro Estado. Todos os demais citados eram funcionários do INCRA em Colorado.

As famílias chegavam em busca de um pedaço de terra “rocha”, sonhavam com esse “EL-DORADO”, em minha lembrança de menino muitas saudades do vai e vem de pessoas, muita poeira ou lamaçal, um clima de Bang- Bang pairava nos “patrimônios” que se formavam do dia para a noite. As pessoas andavam comumente armadas e o meio de transporte era mula, burro ou cavalo.

Os enfeites de prata, pelegos coloridos e couro trabalhado indicavam o status social de cada um

As cidades em sua origem eram compostas por casas e barracões de madeira, era uma raridade alvenaria, a paisagem era tomada por serrarias, botecos, máquinas de beneficiamento de grãos e serialistas comerciantes de produtos agrícolas como arroz, milho, feijão e café.

Todas as casas possuíam pregos pelo lado de dentro que serviam como “cabideiros”, nas cabeceiras das camas mais um prego, esse era para o “soro” aplicado nos pacientes que comumente contraiam malária, doença bastante comum que assolou todas as regiões do território e mais tarde do Estado de Rondônia.
Eu mesmo peguei mais de trinta vezes os plasmódios falciparum e vivax, tornaram-me um usuário de comprimidos como o fancidar.

O capitão Silvio Faria morreu com quatro cruzes de malária em 1979 na clínica do médico Carlos Botelho, em Porto Velho. Em outubro de 2003, no Senado, Amir Lando homenageou-o: “Ele fez justiça social em uma terra ainda rude, assentando milhares de famílias; depois do marechal Rondon foi o personagem mais importante para Rondônia”. (Informações e foto Montezuma Cruz).

O capitão Silvio Faria morreu com quatro cruzes de malária em 1979 na clínica do médico Carlos Botelho, em Porto Velho. Em outubro de 2003, no Senado, Amir Lando homenageou-o: “Ele fez justiça social em uma terra ainda rude, assentando milhares de famílias; depois do marechal Rondon foi o personagem mais importante para Rondônia”. (Informações e foto Montezuma Cruz).

Era interessante essa relação com a malária, as pessoas se ambientaram com ela com uma naturalidade absurda, os comprimidos da “SUCAN” faziam parte da rotina das pessoas como hoje em dia são comuns os remédios para dor de cabeça.

Vilhena era o “portal de boas vindas da nova região”, todos paravam no posto fiscal para receberem vacinas e alguma informação.

A chegada em Vilhena produzia nas pessoas uma grande satisfação, pois a terra prometida se apresentava de imediato.

Vilhena foi uma cidade prazerosa desde sempre, “O Portal da Esperança”, como chamava o Teixeirão. Sua planície recortada por rios transparentes como o Barão do Melgaço, Vermelho, Piracolino e Pires de Sá, eram um convite de bom grado, o serrado florido produzia e ainda produz um efeito indescritível.

manu2Lembro-me de coisas interessantes, minha família veio do Rio de Janeiro, meu pai foi o primeiro dentista em Colorado, era prático, “o Doutor Georges, orgulhava-se de dizer aos amigos que era autodidata”.

Ainda no Rio de Janeiro papai falava da nova região, contava que a terra era tão boa que pé de milho em Colorado produzia cada um sete espigas, pé de quiabo crescia tanto que as pessoas subiam para colher, maracujá dava de quilo, abóboras e mandiocas gigantes compunham parte de seus comentários ao lado da exuberante floresta amazônica, rios que pareciam com os oceanos e feras indomáveis que comiam pessoas ocupavam nosso imaginário, eu ainda menino, às vezes me encantava, às vezes ficava com medo.

Tudo se organizava a partir do INCRA, as pessoas iam chegando e ocupando as margens da BR 364, cada acampamento do INCRA, em questão de dias e semanas, se transformava em cidades.

Apesar dos planos de colonização, dos esforços dos servidores da criação do INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, e outros órgãos como, CODARON e ASTER, a região era assolada por problemas, a lei era a do “Papo Amarelo”, eu ouvia falar de um monte de marcas de armas, como: Parabelo, Táuros, Smith & Wesson e remington que ao lado de machados, serrarias e motosserras, compunham o cenário regional.

manu3Tudo era rústico, os ferreiros trabalhavam muito cedo as quatro da madrugada se ouvia em Colorado o bater de marretas do Leca e Bugrin.

O bolão, espécie de boliche, era um ponto de encontro para beber, conversar, namorar e saber das novidades. A agricultura, pecuária, indústria madeireira e as minas de oura como a “TOP-LESS” dominavam a economia no cone sul do território de Rondônia.

Emmanoel-Gomes-ArtigosAs localidades de Cabixi, Nova Esperança, que depois se transformou em Corumbiara, Rondolândia e Cerejeiras não existiam. Pimenteiras era um porto distante e esquecido, todo o cone sul era parte do município de Vilhena.

As margens dos rios, Cabixi, Piolho e Guaporé ainda sobreviviam nos resquícios dos seringais, foi quando conheci o seu Chico Soldado, Benedito Chaves, o “nego Charles” e tantos outros seringueiros que nos atendiam com muita curiosidade e atenção.

Com o tempo foram se emancipando, primeiro Colorado, depois Cerejeiras, Cabixi, Corumbiara, Pimenteiras e por último Chupinguaia.

Os novos colonos estavam completando os trabalhos de outros desbravadores, bandeirantes, sertanistas, droguistas, seringueiros e garimpeiros de outrora. Todos nós, os nós de agora.

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