Rondônia e sua pluralidade cultural; artigo do historiador Emmanoel Gomes

2013-10-05T10:43:38+00:0005 outubro, 2013|

Encontrei uma Castanheira.
Suas flores seu fruto alimentam a carne, a vida o coração.
A pobre alma beradeira será alimentada se sua nobre madeira trabalhada, cavucada, amalgamada, esculpida…
Tornar-se um singelo violão.

[dropcap]A[/dropcap] ocupação ocorrida nos últimos quarenta anos produziu um quadro cultural diferente das migrações anteriores no solo rondoniense e rondoniano. O norte de Rondônia e seu extremo oeste ficaram com uma população ligada aos padrões culturais regionais ribeirinhos tradicionais, construídos desde o período colonial. Lendas, mitos, contos e causos fantásticos e impressionantes ocupam o imaginário profundo e criativo das pessoas que insistiram no isolamento e ocupação da extraordinária e inóspita região. O resultado do acúmulo de várias gerações que ocuparam a imensa, escura e distante floresta se manifesta na vasta expressão cultural existente.

Essa área é formada pelos municípios dos vales do Guaporé, Mamoré e Madeira, possuem características amazônicas, desde sua culinária, música e festas tradicionais. Onde podemos perceber e diagnosticar uma relação profunda com a floresta, onde a mesma se apresenta como uma espécie de santuário, quintal místico que fornece alimentos, remédios, óleos, etc.

As populações possuem uma relação com a floresta, em que ela é fundamental em seu cotidiano, é a cultura do peixe e da macaxeira. A floresta tem mais valor para as culturas tradicionais amazônicas estando de pé, dela é extraída boa parte do que se consome, como: açaí, pupunha, abacaba, puruí, palmitos, andiróba, copaíba, tucumã, babaçu etc.

A floresta tem ingredientes míticos à cultura tradicional ribeirinha e indígena, associada aos seus mistérios e encantamentos, as pessoas vivem o ritmo dos seus rios, suas lendas e tradições.

Espiritualidade plural e infinita, rezas benzi mentos, misticismos se relacionam com novas experiências religiosas como o candomblé, protestantismos, catolicismos, budismos, espiritismos e uma infinidade de outras seitas e religiões.

Experiências religiosas, mágicas nascidas no oco da floresta medonha surgem, o Santo Daime e a União do Vegetal, recebem a cada dia, mais seguidores que se encantam com um mundo que parece não estar neste tempo, neste cosmo, revelando novos modelos de espiritualidade que possibilitam um reencontro com os mistérios sobrenaturais das divindades santas e profanas da terra sem males, da Amazônia.

Dançarina da festa do boi bumba

Dançarina da festa do boi bumba

A colonização recente sulista, não atingiu essas “regiões tradicionais”, ela ocupou de forma muito decisiva a as cidades que surgiram entre Vilhena e Ariquemes, construindo ali um modelo cultural ligado ao Sul do Brasil.

Fogo no chão, uma tradição sulista

Fogo no chão, uma tradição sulista

O chimarrão e o churrasco ditam o passo nessas regiões, enquanto que nas zonas que defino como tradicionais amazônicas o ritmo é ditado pela caldeirada de tambaqui, tapioca, tucupi e pupunha.

Lentamente estes dois modelos vão se misturando gerando grandes percas para o modelo cultural amazônico na região, pois diferente da cultura sulista, a cultura tradicional amazônica não esta solidificada, ou sedimentada como a sulista.

O processo de colonização recente foi imposto foi abrupto, repentino, não sendo acompanhado por uma iniciativa de proteção dos valores tradicionais. Enquanto a cultura do chimarrão se espalha através dos CTGs – Centros de Tradições Gaúchas, o modelo cultural ligado à floresta vai desaparecendo.

As florestas foram derrubadas e queimadas para dar lugar ao desenvolvimento da pecuária e cultura da soja. As terras ficaram limpas e árvores que são de grande importância na cultura amazônica foram derrubadas, como: Castanheiras, Copaíbas, Andiróbas, Pupunha e Tucumã desapareceram quase que completamente na região central e sul do Estado.

Flagrante de queimadas, uma constante na floresta amazônica. Fonte: www.zone.com.br

Flagrante de queimadas, uma constante na floresta amazônica. Fonte: www.zone.com.br

Os novos colonos vindos do Sul e Sudeste do Brasil, em sua maioria, não conheciam o potencial dessas árvores, não se identificavam com a flora e fauna amazônica. Suas espécies tão importantes para nosso eco sistema desapareceram nas laminas de motosserras e tratores com correntes.

Não pretendemos de forma alguma condenar o colono, queremos demonstrar com clareza o quanto foi falho o processo de colonização que não se preocupou em difundir os valores regionais para uma população vinda de uma região tão diferente. Não existiam órgãos fiscalizadores, orientadores, protetores, da rica e diversificada fauna regional amazônica.

As famílias oriundas em sua maioria do Sul do Brasil foram grandes vítimas do descaso governamental, foram arremessadas à floresta tropical sem a devida estrutura, muitos viram seus parentes morrerem de malária, os lotes doados pelo INCRA, muitas vezes se localizavam a dezenas de quilômetros do centro administrativo que ia surgindo.

Em Colorado do O’este, convivi com essa realidade, pude acompanhar algumas famílias em sua caminhada até a terra prometida por cinqüenta, sessenta quilômetros arrastando o cacaio, espécie de mochila feita com uma calça velha, onde se punha o essencial, como : sal, querosene, munição, charque e farinha.

Suas vidas passavam por dramas sem fim, muitas vezes o encontro com o inesperado dramatizava mais ainda a viagem, onças espreitavam os viajantes. Histórias davam contas de vários ataques.

Presente também, a ameaça dos jagunços, lacaios de grileiros inescrupulosos, comuns no cone sul zona da mata e ao longo de toda a Br 364, até a vila Papagaio atual Ariquemes que ainda não havia sido asfaltada, eles eram sempre uma ameaça a ser considerada, muitos foram assassinados, pois lei para os mais pobres era como hoje, piada sem graça.

Os novos colonos viviam em meio aos sonhos, esperanças e temores, apegados a Deus arrancavam uma coragem que ninguém sabe explicar direito de onde veio, mais no final, se alinharam ao trajeto histórico tendo como ancestrais as populações indígenas. Mais tarde os bandeirantes do Vale do Guaporé, depois os seringueiros da Primeira fase da Borracha, ainda mais tarde, a Segunda Fase com o Soldado da Borracha, na Colonização Recente, construíram um capítulo novo em nossa história e ofereceram para a geração atual isso que chamamos de terras de Rondônia e que bem nos acolhe.

Emmanoel-Gomes-ArtigosOs sulistas que chegaram impulsionados pelas grandes ondas migratórias, nos últimos quarenta anos, merecem de todos nós o respeito devotado aos grandes heróis.

Cada família possui um pouco do sangue, força, garra e caráter de Alexandre de Gusmão, Ricardo Franco, Rondon, Ajuricaba, Roquette Pinto, Tereza de Benguela, Capitão Silvio, Capitão Alípio entre outros. Pessoas que se entregaram ao mundo inimaginável existente na última fronteira a ser ocupada e conquistada na terra

Vivemos o quinto período desenvolvimentista de Rondônia, agora, somos nós os novos bandeirantes. Cabe a todos nós, do hoje, de Vilhena à Extrema, de Cerejeiras à Guajará Mirim, de todas as beiras de rios, de todas as cores e crenças, os novos passos que determinará o futuro dessa terra. As terras que um dia foram definidas como: “Terras de Rondon, Terras do Guaporé”.

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Um comentario

  1. Fernando H. Araujo 4 janeiro, 2014 at 2:06 pm

    Quando se fala em pluralidade cultural em Rondônia, devem estar intrínsecos nessa ideia os constantes conflitos por certa supremacia. É verdade que existem culturas diferentes oriundas do processo de colonização. Porém, a harmonia entre elas, se existe, é por causa do abandono forçado da ideia de superioridade de umas para com as outras… Alguém tem que ser o preferido de Deus!

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