Sobre a arte e cultura em Rondônia; artigo do historiador Emmanoel Gomes

2013-10-29T19:00:18+00:0029 outubro, 2013|

Toda a arte e toda a filosofia podem ser consideradas como remédios da vida, ajudantes do seu crescimento ou bálsamo dos combates: postulam sempre sofrimento e sofredores.

Friedrich Nietzsche

[dropcap]Q[/dropcap]uando sou levado a refletir sobre o que se faz de arte e cultura em Rondônia, fico estarrecido. Primeiro que inexiste uma proposta de política cultural por parte dos agentes públicos. Não me venham falar de construção de teatros, restauração de praças, flor do maracujá e projetinhos do tipo cinco e meia, noite da seresta e todas as manifestações ocorridas em “nosso” Mercado Cultural.

grana_pra_arte_culturaSei que existem sim produções relevantes, militâncias dignas, iniciativas criativas. Porém, quase tudo o que se faz nessas paragens, é de iniciativa dos heróis, digo artistas que insistem em um fazer cultural que brota do minguado, do soluço, do sufoco, devaneio inesperado, pelo “ser algo pela existência”. Ao redor, uma sociedade insensível, cética, materialista, individualista, profundamente alienada e vazia.

Sei que algumas pessoas, ao seu modo, lutam se desgastam e insistentemente gritam, berram na tentativa de ser ouvido, notado, escutado, identificado, visto e por fim valorizado em seu fazer artístico.

Queridos amigos e parceiros da trincheira cultural, Basinho, Zé-Katraca, Hugo Evangelista, Zola, Antônio Candido, Joesér, Lúcio Albuquerque, Bado, Mado, Bubú, Binho, Bira, Junior Lopes, Ceiça, Ernesto, Dadá, Carlos Moreira, Francisco Matias, Miléo, Rogério Cabral, Átila, Marcos Biezek, Paulo Tomazzele, Julio Yriarte, Scalercio Pires, Pandolfo, Gilson Maciel, Baaribú e tantos, tantos outros que incomodados seguem apegados ao sonho em prol da arte, saber, cultura e educação.

Amigos que desejam manifestações culturais e artísticas que superem as aparências, a mesmice, o cotidiano, o supérfluo, o óbvio, enfim, a lógica do consumo em uma pobre sociedade que não consegue se libertar dos problemas históricos como a pobreza e a corrupção.

Não podemos mais nos contentar com os restos, migalhas, sobras que escorrem nas largas bocas do poder, nos contentar com o que sobra dos orçamentos manipulados pelos coronéis de ontem e de hoje.

Precisamos ser mais firmes, radicais e valentes. Os artistas foram sempre tratados com desdenha e cinismo pelo poder, não é por ser amigo do Tatá, da Berenice, do Chicão, da Bebel, do neto ou sobrinho, do Confúcio ou Sidarta que as coisas mudaram ou vão mudar.

Nas últimas décadas as coisas só pioraram, seja com PT, PMDB, PSDB etc. Machado de Assis definiu que a arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal. O mal está posto, presente e fazendo cada vez mais vítimas.

Não podemos nos acovardar por conta do pão, do cargo, da festa oficial. Não posso concordar com a idéia de que “depois de bem ajustado o preço, a gente deve sempre trabalhar por amor à arte”.

Definitivamente, nesse país de “artistas bananas” qualquer poeta, pintor, músico, dançarino, para sobreviver precisa arrumar um emprego, pois a arte ainda é tratada pela inteligência nacional e oficial, como coisa de vagabundos. Gostaria de discordar da afirmação de Louis Saint-Just quando afirmou que as artes só produziram maravilhas: a arte de governar só produziu monstros. Tento crer, busco ter fé, motivação, inspiração na mudança cotidiana e quiçá um dia, por resultado de nossas lutas, termos dirigentes mais éticos, justos, leais, solidários e comprometidos com a arte.

 Saibam todos, que o valor dos cachês pagos pelas instituições oficiais aos artistas locais, beradeiros, regionais, e todos os adjetivos que possam nos impor rotular, definir, diminuir e identificar, é vergonhoso, é realmente uma prática vilã.

O KLB, Chiclete Com Banana, Asa de Águia, Diante do Trono, Ivete, Cláudia Leite e tantos outros recebem pagamento astronômico, e pior, vão gastar lá adiante, não fica nada para o Estado. Como afirmou um dia meu querido Baribú Nonato, faço o que eles fazem de costas. Grande amigo, eu não tenho dúvidas.

Retirar equipamentos de som do Mercado Cultural não é tão grave como pagar trezentos reais com mais de três meses após a apresentação para músicos do naipe do Zezinho Maranhão e tantos outros que tão bem conhecemos e aplaudimos. Não é mais grave que derrubar o que restou do prédio histórico do Mercado Cultural. Não é mais grave que a vergonhosa reforma do cemitério da candelária e os milhões que tentamos enxergar na pobre reforma da praça Madeira Mamoré.

Em nosso Estado, verbas públicas estão sendo utilizadas para construir teatro em município onde não existe grupo teatral, banheiro coreano na praça que custou algumas centenas de milhares de reais, viadutos por cima da BR sem a menor necessidade, Prédios públicos com a suntuosidade dos palácios das mil e uma noites, pois possuem colunas de cobre e revelam a opulência em uma sociedade que não consegue dignificar a maioria das pessoas.

Um País onde as lideranças políticas se gabam, sente orgulho de pagar bolsa família, bolsa escola, bolsa universidade, bolsa para presidiário e um salário mínimo, mas mínimo mesmo.

O nosso Estado e municípios gastam dezenas de milhões com comissionados, milhares de pessoas com altos salários sem nunca ter sofrido, batalhado, suado na tentativa de realizar um concurso público.

Pessoas que nunca militaram em prol de tão digno tema como a cultura, foram promovidas por terem feito campanha política para alguém, por terem compreendido que “o escroto do mandatário político é o corrimão do sucesso”.

Emmanoel-Gomes-ArtigosChega de ilusões e ingenuidades. Chega de palhaçada. Não podemos ficar no debate paliativo, remendado, momentâneo. Como afirmou Maiakóviski, a arte não é um espelho, mas um martelo para tudo forjar. Precisamos construir outra relação com a causa cultural e artística. Chega do “se eu falar serei punido”. Lembremos o Fernando Pessoa no Poema Em Linha Reta.

Vamos parar de fazer discursos e poses em função dos nossos egos e vaidades e lutar pelo fazer artístico. Como disse um dia Stanislavski: aprendamos a amar a arte em nós mesmos e não nós mesmos na arte.

Vamos compreender que a coisa mais importante é a obra, que sem autor não existe obra. Mais que a restauração porca do pobre patrimônio cultural, lutar pelo reconhecimento digno das pessoas, dos nossos artistas e produtores culturais.

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