Após ter cravado na última reunião que o corte desta quarta-feira (17) seria o último, desta vez o Copom deixou a porta aberta para estímulo ‘residual’.

Brasília – Edifício-sede do Banco Central do Brasil (Wilson Dias/Agência Brasil)

redução da taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual, para 2,25% ao ano, já era esperada pelo mercado em função da gravidade dos efeitos da pandemia do coronavírus na economia. Mas o tom adotado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) no comunicado da decisão surpreendeu e dividiu analistas, que já esperam que a Selic encerre 2020 em até 1,5% ao ano.

Foi a oitava diminuição consecutiva da taxa, que já estava no menor patamar da história. Após ter cravado na última reunião que o corte desta quarta-feira (17) seria o último, desta vez, o comitê do Banco Central disse que o “estímulo monetário já implementado parece compatível com os impactos econômicos da pandemia da Covid-19”, mas também deixou a porta aberta para uma nova baixa “residual”.

No texto, o BC admite que o espaço que tem para fazer um estímulo adicional é incerto e diz que ele “deve ser pequeno”. 

O balanço de riscos apresentado é misto. De um lado, o BC indica que o nível de ociosidade pode levar a inflação a um nível abaixo do esperado, o que sugeriria novos cortes. No cenário híbrido traçado pelo Copom, ela ficaria em 2% neste ano (a meta vai de 2,5% a 5,5%) e em 3,2% no próximo (a meta vai de 2,25% a 5,25%). Do outro, aponta que “políticas fiscais de resposta à pandemia que piorem a trajetória fiscal do país de forma prolongada, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco”, mas que os programas de estímulo adotados até agora também podem fazer com que a demanda caia menos do que o esperado.

Gustavo Arruda, economista-chefe do banco BNP Paribas, entende que o comunicado dá margem para mais de uma interpretação.

“Cada um lê de um jeito. Quem acha que o ciclo de cortes acabou, vai ressaltar que o Copom disse que entende que a política monetária parece compatível com os impactos econômicos da pandemia. E também é possível interpretar que ele está mais permeável a testar níveis mais baixos, dependendo de como as coisas evoluírem. Entre as duas pontas, eu fico com a percepção de que ele está disposto a experimentar”, afirma.

A leitura de que esta não será a última redução é compartilhada por André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton. “Pelo tom do comunicado, acredito que a taxa cai para 2% ao ano”, diz.

Selic a 1,5%

João Rosal, economista-chefe da Guide Investimentos, avalia que o Copom irá construir gradativamente a convicção de que novos cortes serão necessários, a despeito da sinalização anterior de que este seria o último. 

“Esse possível ajuste vem em linha com o que esperávamos e deve se repetir mais à frente. A expectativa é de que o Copom vá nessa toada até que a Selic chegue a 1,5% ao ano”, diz.

Ele destaca que o cenário híbrido traçado para a inflação já contempla o corte atual e que ele dá mais substâncias para esperar mais estímulos. Para o economista, se a taxa voltar a subir, “será muito marginalmente”, para 2% no fim de 2021.

“A velocidade de saída da pandemia será definidora. Quanto mais tempo levar, mais emperrada fica a máquina de crescimento, porque empresas falidas terão que ser reerguidas e pessoas há muito tempo fora do mercado de trabalho perderão produtividade. O BC vai se certificar de que a taxa tem que ficar baixa para evitar esse cenário ainda mais catastrófico”.

O economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, também aposta que os juros básicos serão reduzidos gradualmente até chegarem ao fim de 2020 em 1,5% ou 1,75% ao ano. É o mesmo patamar em que acredita que a inflação para os próximos 12 meses estará, o que deixará a taxa de juros real próxima de zero, podendo ficar “um pouquinho positiva, ou negativa”

Na avaliação dele, o Banco Central subestimou o tamanho da crise na última reunião, assim como boa parte do mercado. “Só quem achava que o país trataria a pandemia como se fosse a Suíça poderia acreditar que tudo estaria resolvido em um trimestre. Aí é bom mocismo”, afirmou. 

Gonçalves entende como equivocada a percepção de que o estímulo monetário feito até agora e os programas emergenciais de transferência de renda conseguirão afetar a demanda significativamente a ponto de mudar a trajetória da inflação. 

“A natureza dessa crise é de interrupção da atividade. Primeiro, tem que parar de cair. Depois, recuperar o que foi perdido”, afirma.

Ele concorda com o argumento que de que uma piora da trajetória fiscal pode elevar o prêmio de risco, mas não vê efeito imediato desse movimento na alta dos preços. “Estamos carecas de saber que em uma recessão isso não acontece”, diz, ressaltando ainda que o atual nível do câmbio é melhor do que o da última reunião.

“A única coisa que consigo ver é que, pela regra do regime de metas, uma inflação persistentemente abaixo da meta significa que a Selic está acima da taxa de juros estrutural da economia.”

Renda fixa fica ainda menos atraente

Com os juros em 2,25% ao ano, o investimento em renda fixa fica cada vez menos atraente, aponta Roberto Indech, estrategista-chefe da Clear Corretora.

“O que a gente mais olha a partir de agora é o custo de oportunidade do investidor brasileiro. É claro que em alguns ativos de renda ainda se pode ter algum retorno interessante, mas quem quiser melhor rentabilidade vai ter que investir na bolsa ou se tornar um empreendedor e investir na economia real.”

Por: Luísa Melo, do CNN Brasil Business, em São Paulo