É Fantástico! Investigações apontam que bandidos financiavam políticos em Rondônia

2013-07-15T09:49:26+00:0015 julho, 2013|

Deputada registrou em cartório benefícios que daria para quadrilha. Operação Apocalipse prendeu 53 pessoas no início de julho. Morte de mulher de vereador pode ser investigada, diz Polícia.

Untitled-1[dropcap]U[/dropcap]ma operação da Polícia Civil deRondônia realizada no início de julho desmontou um esquema montado por bandidos que dava dinheiro para campanhas políticas em troca de favores e cargos públicos. Alberto Ferreira Siqueira, conhecido como Beto Baba, foi preso em Porto Velho na sexta-feira (12), acusado de ser um dos líderes deste esquema. Os criminosos chegavam a escolher os candidatos que disputariam as eleições.

Foram presas 53 pessoas até agora na Operação Apocalipse, da Polícia Civil, entre empresários, funcionários fantasmas e vereadores de Porto Velho. Cinco deputados estaduais foram afastados do cargo por suspeita de participação no esquema, entre eles, Hermínio Coelho (PSD-RO), presidente da Assembleia Legislativa de Rondônia. De acordo com as investigações, ele contratou pelo menos dez funcionários fantasmas no atual mandato.

Um deles é um taxista, que está registrado como assistente parlamentar do deputado. Ele foi seguido pela polícia e teve sua imagem gravada. Nos dias de investigação, ele não foi para a Assembleia trabalhar. “No Legislativo, a maioria dos assessores dos deputados não trabalham dentro do gabinete, trabalha nas bases”, disse ao “Fantástico”. “Se alguém provar que eu tenho qualquer ligação criminosa com qualquer pessoa nesse Estado ou nessa cidade ou nesse mundo, eu renuncio ao meu mandato. Eu não tenho ligação criminosa com ninguém”.

A Operação Apocalipse prendeu em 4 de julho Roberto Rivelino Guedes, filho de Coelho. Na casa dele foram encontradas notas fiscais de postos de gasolina e documentos bancários.

A deputada estadual Ana da Oito (PT do B-RO), de acordo com as investigações, teria registrado em cartório os benefícios que daria para a quadrilha depois de eleita. O documento está entre as provas da polícia. Nele, Ana assume o compromisso de partilha do mandato com os criminosos, comprometendo-se a reservar 33% de todos os rendimentos para Beto Baba. Ela ainda daria poder para ele indicar o chefe de gabinete e mais alguém para um cargo com salário de R$ 3 mil.

Em troca, a deputada teria recebido mais de R$ 50 mil do traficante para pagar despesas da campanha. O documento tem data de agosto de 2010, dois meses antes das eleições daquele ano. Ana da Oito teria contratado quatro funcionários fantasmas, que recebiam salários e devolviam parte deles para a deputada.

“Diversas pessoas ligadas diretamente e até parentes destes indivíduos que fazem parte da quadrilha foram nomeados em gabinetes da Assembleia Lesgislativa e da Câmara Municipal para serem nomeadas a cargos comissionados sem, no entanto, exercer suas funções naquela localidade, aquela função pública”, disse Marcelo Bessa, secretátio de Segurança Pública de Rondônia.

Ana Cristina das Pontes seria um desses funcionários, de acordo com a polícia. Gravações usadas na investigação mostram que ela é professora de dança em uma academia de Porto Velho. Na Assembleia ela está registrada como assistente parlamentar. A polícia afirma que ela sabia do esquema e foi presa.

“Todas as pessoas investigada e que conseguimos chegar por qualquer motivo, seja por uma testemunha ou por uma prova de interceptação, foram investigadas e acompanhadas através de seus atos devidamente documentados como fotografias e filmes”, afirmou Pedro Mancebo, diretor-geral da Polícia Civil de Rondônia. “Assim obteve-se provas fortes no sentido da dar subsídio ao Ministério Público ao oferecer denúncia e ao judiciário para fazer o seu julgamento com provas suficientes”.

Funcionário fantasma em outro estado
Outro caso de contratação ilegal chama atenção por um motivo geográfico. Uma funcionária fantasma contratada pelo deputado Cláudio Carvalho (PT-RO) não morava em Rondônia e, sim, no Rio Grande do Norte. A investigação aponta que Andreia Macedo Braga recebia um salário de quase R$ 6 mil como funcionária fantasma. Ela foi presa junto com o marido, Fernando Braga Serrão, no apartamento onde moravam de frente para o mar em Natal. Uma gravação usada na investigação afirma que eles compraram o apartamento por R$ 750 mil.

Segundo a polícia, Fernando é conhecido como “Fernando da Gata” e também era um dos líderes do esquema que financiava políticos em troca de favores. Ele confirmou que a esposa, mesmo morando em Natal, era registrada como funcionária na Assembleia Legislativa de Rondônia.

Para infiltrar integrantes da quadrilha na política de Rondônia, os bandidos movimentaram mais de R$ 30 milhões e abriram 500 contas bancárias nos últimos cinco anos. O dinheiro era arrecadado com o tráfico de drogas e estelionatos. Para tentar legalizar este dinheiro, os criminosos compravam imóveis e carros. Os veículos tinham valores altos, entre R$ 100 mil e R$ 150 mil. Em um ano e meio o grupo teria negociado cerca de 200 carros, um total de R$ 7,5 milhões.

“A pretensão de financiar a campanha de alguns políticos era de, uma vez que eles fossem eleitos, que eles pudessem retornar este benefício com algumas facilidades. Entre elas a nomeação de cargos comissionados e até participação em emendas parlamentares”, afirma Bessa. Ele diz que o esquema também favorecia empresas ligadas ao grupo em licitações.

Denúncia de esposa
Em 2011, a mulher do vereador de Porto Velho, Jair Montes (PTC-RO) – que está preso -, Maria Eliane dos Reis Soares, foi vítima de um assalto e procurou a delegacia. Na época, a polícia já investigavam o envolvimento de políticos com o crime organizado e questionou a mulher sobre os gastos da campanha do marido. Ela revelou que o dinheiro vinha de Beto Baba. Além do dinheiro, a casa do vereador também era usada para esconder drogas.

Escutas telefônicas mostram que, depois de eleito, o vereador passou a estreitar a parceria com os bandidos para conseguir uma vaga de deputado estadual nas próximas eleições.  A mulher de Jair Montes morreu um ano depois de prestar o depoimento na delegacia. Ela suspeitava de estar sendo envenenada.

O áudio do depoimento confirma a suspeita. “Eu acho que já fazia uns dois meses que eu estava comendo comida envenenada e não sabia. Daí, quando vi um exame de laboratório, constataram que tinha veneno. Eu estava ingerindo porções de veneno, pouca, mas eu estava consumindo.”

Bessa disse que há possibilidade de se investigar as causas da morte. “São muito suspeitas”, afirmou.

O advogado de Jair Montes não quis se manifestar. Em depoimento à polícia, Ana Cristina Dias Pontes preferiu ficar calada.

Ao longo das duas últimas semanas, o “Fantástico” tentou falar com os deputados estaduais afastados Cláudio Carvalho e Ana da Oito, mas eles não responderam.

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