Com mais um provável corte profundo na taxa Selic, a taxa básica de juros da economia, o Brasil começa a flertar com um cenário até pouco tempo impensável: a dos juros reais negativos.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) se reúne nesta quarta-feira (17) para decidir a nova Selic, que, na aposta da grande maioria das projeções, deve cair dos atuais 3% ao ano para 2,25%. Será, mais uma vez, o menor nível de sua história e um patamar antes impensável para um país onde os juros passavam de 10% há apenas três anos, chegavam aos 20% na década de 2000 e bateram os 40% na de 1990. 

O juro real é o quanto a taxa de juros fixada varia acima da inflação – se, entretanto, a inflação fica maior, a diferença passa a ser negativa. Na prática, significa que quem tem alguma aplicação rendendo àquela taxa estará perdendo dinheiro, porque o avanço dos preços come o poder de compra mais rápido do que os juros remuneram. 

Isso, entretanto, só não vai acontecer no Brasil desta vez por pouco – já que a inflação de 2020 está caindo ainda mais rápido do que a Selic. Como resultado, o país terá neste ano um dos menores juros reais de sua história, podendo inclusive ficar menor do que a inflação em um mês ou outro. Ainda assim, não será dessa vez que eles ficarão estruturalmente negativos. 

“O país teve deflação devido à forte recessão, e isso abriu espaço para novas quedas na Selic”, diz o economista Gesner Oliveira, sócio da consultoria GO Associados, mencionando os fortes impactos na economia causados pela pandemia de coronavírus. “Não chegaremos a ter juro real negativo, mas há uma correção para uma taxa real próxima de zero.”

Assim como a Selic, a inflação também está em alguns dos níveis mais baixos de sua história – ficou negativa em abril e maio, nas piores leituras em mais de 20 anos, e acumula apenas 1,8% em 12 meses até aqui, também os menores níveis desde o Plano Real. Ainda é uma margem folgada para os 4,9% que a Selic acumulou nos mesmos 12 meses até aqui (em junho do ano passado, ela ainda estava em 6,5%), mas já encosta nos 2,25% que deve passar a remunerar a partir da decisão do BC. 

Até o fim do ano, a expectativa é que o Banco Central mantenha os juros congelados no piso de 2,25% enquanto a inflação caia mais, até 1,6%, de acordo com as projeções de mercado reunidas pelo BC no Boletim Focus. Isso significa juros reais anuais na casa dos 0,7%, algo nunca visto antes por aqui.

“Juros de 2,25% ao ano, por exemplo, significam 0,19% ao mês”, diz o coordenador do Laboratório de Finanças do Insper, Michael Viriato. “É muito pouco e é muito provável que em um mês ou outro a inflação supere isso, e nós tenhamos juros reais negativos em alguns momentos.”

Poupança e Tesouro Selic no 0 x 0 

A Selic serve como piso e referência para todos os juros praticados no país, tanto de aplicações financeiras – que rendem um pouco mais ou pouco menos do que ela, na renda fixa –, quanto para os empréstimos e financiamentos oferecidos pelos bancos. 

Para algumas aplicações, lembra Viriato, os juros atuais já significam rendimentos nulos ou negativos, se considerada a inflação. É o caso da poupança, que, por regra, rende atualmente 70% da Selic – se a Selic for a 2,25%, a poupança passa a pagar 1,57%, ou um empate técnico com o 1,6% previsto para a inflação de 2020.

O Tesouro Selic – título do Tesouro Direto que remunera exatamente a Selic – e CDBs que paguem menos do que 100% do CDI (taxa que anda colada à Selic) também ficam esprimidos, já que eles pagam Imposto de Renda de 15% até 22,5% sobre o rendimento.

Juro real baixo ajuda economia

Juros reais próximos de zero ou negativos são uma disfunção da economia, comuns a períodos de recessão, quando as taxas ficam muito baixos, ou de hiperinflação, quando os preços ficam altos demais. Mas se tornaram razoavelmente comuns nos últimos anos, desde a crise financeira de 2008, quando países como Japão e economias da Europa passaram a adotar juros básicos negativos para conviver com uma situação de crescimento baixo permanente. Nos Estados Unidos os juros também já chegaram a 0% desde o estouro da crise do coronavírus

No Brasil, as taxas ineditamente baixas são, em parte, um pedaço desse contexto global. Elas encontram uma economia que já vinha crescendo de maneira lenta nos últimos três anos e que ficará assustadoramente pior agora. As principais projeções falam em quedas superiores a 5% do PIB neste ano. Nesse cenário, a intenção do BC é justamente que a dilaceração dos juros dê um chacoalho na atividade econômica. 

“Juros reais próximos de zero são muito positivos agora, porque estamos vivendo um momento especialmente ruim”, disse Viriato, do Insper. “Há uma ociosidade muito grande na economia, não há risco de a inflação ficar elevada e os juros baixos fazem com que as pessoas se mexam para fazer algo diferente com os seus recursos.” 

São pequenos e grandes investidores que vão desistindo de aplicações meramente financeiras, como os títulos de renda fixa, para investirem em opções mais ligadas à economia real, como ações, imóveis ou empreendimentos. Crédito e empréstimos também tendem a ficar mais baratos e estimular investimentos das empresas.

“Queda nos juros tem efeitos para a formação dos juros do mercado imobiliário e, principalmente, para os investimentos de longo prazo e que puxam a economia, como saneamento, rodovias e infraestrutura”, disse Oliveira, da GO Associados.

De quebra, ele acrescenta, o corte forte na Selic também tira um peso enorme de gastos com juros da dívida pública, que já deve disparar conforme os gastos extraordinários têm que crescer para acudir a pandemia. “Há um impacto fiscal relevante, melhora o déficit fiscal e a dívida ficaria ainda maior com uma taxa de juros mais alta”, disse

Por: Juliana Elias, do CNN Brasil Busines, em São Paulo