A Safra da desesperança

2013-06-28T16:04:54+00:0004 junho, 2013|

Essencial para a obtenção de boas colheitas, a chuva, quando em excesso, acaba com a esperança de alta produtividade. Foi o que aconteceu na safra 2012/2013 em Rondônia

Marcus Fernando Fiori
(Especial para o Rondônia em Pauta)

[dropcap]L[/dropcap]evantamentos preliminares revelam: só um número parece ter crescido na safra de soja 2012/2013 em Rondônia: o da área de plantio. As demais estatísticas envolvendo o grão não são animadoras. A vilã, desta vez, foi a chuva. Ela caiu em excesso durante o período de colheita e levou a produtividade – a rondoniense é historicamente uma das maiores do Brasil – a cair na ordem de 10%, no mínimo, se comparado com a safra anterior. Pode parecer pouco, mas num mercado mundial em que o preço do produto encontra-se em baixa, o índice é mais do que suficiente para provocar a quebra de muitos produtores.

Vicente Godinho, pesquisador da Embrapa Rondônia

Vicente Godinho, pesquisador da Embrapa Rondônia

            “Em mais de 80% do período de colheita, que vai de janeiro a março, foi registrado algum nível de precipitação, e isso foi extremamente ruim para a safra 2012/2013”, disse o pesquisador da Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – em Rondônia, Vicente Godinho. É isso: a chuva, tão essencial para a obtenção de boas safras, pode, de uma hora para outra, tornar-se o carrasco dos produtores rurais.

            EFEITO CASCATA – Como conseqüência do excesso de chuva, colhe-se um grão de menor qualidade. A produtividade cai drasticamente e a logística, principalmente as estradas vicinais e as principais, se deterioram, o que eleva o custo de transporte. Compromete também a qualidade do controle de invasoras (a carpina química perde eficácia e plantas indesejáveis passam a competir por nutrientes com a soja, além de gerar impurezas no produto) e de pragas e doenças – houve, este ano, uma explosão de ferrugem asiática da soja em Rondônia.

            O controle de pragas (lagartas e percevejos) foi precário por conta do excesso de chuvas, o que levou a um quadro de quebra de produtividade em todo o Estado. “A chuva comprometeu também o controle de doenças”, atestou Vicente Godinho. “Houve uma explosão da ferrugem asiática da soja principalmente do meio para o fim da colheita. Quem fez o plantio tardio teve produtividade pífia”.

Questão logística: a BR-364, principal canal de escoamento da soja rondoniense, fica em condições precárias no tempo das águas na Amazônia, encarecendo o frete para os produtores de soja

Questão logística: a BR-364, principal canal de escoamento da soja rondoniense, fica em condições precárias no tempo das águas na Amazônia, encarecendo o frete para os produtores de soja

            MAIS PROBLEMAS – Como se fosse pouco, a água em excesso gerou mais problemas e, por tabela, prejuízos, aos produtores rurais. Grãos úmidos são mais pesados e, assim, além de transportar o grão em si, os caminhões carregam também uma quantidade considerável de água, o que encarece o frete. O custo de secagem da soja também aumenta quando o grão encontra-se molhado.

            O produtor não tira o olho da questão logística, uma vez que toda ela fica comprometida pelo excesso de chuva. O principal canal de exportação regional, a BR-364, está bastante deteriorado, o mesmo acontecendo com as estradas vicinais. Registra-se também o desgaste prematuro de todo material de colheita (máquinas e colheitadeiras).

            CENÁRIOS POSSÍVEIS – Nos últimos 12 anos registrou-se excesso de chuvas em pelo menos três safras. As perdas, nesses casos, sempre foram iguais ou maiores a 10%, ultrapassando os 20% no noroeste do Mato Grosso. Em Vilhena a área plantada na última safra foi de cerca de 41 mil hectares, e registrou-se plantios também em Cerejeiras, Cabixi, Colorado do Oeste, Pimenteiras do Oeste, Corumbiara e Chupinguaia, ou seja, em todos os municípios do Cone Sul de Rondônia, além de muitas outras cidades do Estado, que no total registrou plantio do grão em cerca de 175 mil hectares.

            “Em Vilhena nem tanto porque os produtores locais são preparados para esse cenário, mas em outras cidades muitos produtores vão quebrar e não vão conseguir se levantar por conta do excesso de chuvas”, diagnosticou Vicente Godinho, que vem acompanhando o desempenho da produção e produtividade da soja em Rondônia na condição de pesquisador dessa cultura na Embrapa.

            A produção brasileira de grãos aumentou e, segundo a Conab – Companhia Nacional de Abastecimento –, deverá ultrapassar os 184 milhões de toneladas na safra 2012/2013, o que constitui uma marca histórica. A produtividade, porém, vai cair por conta de problemas climáticos. O aumento se dá, então, pela ampliação da área plantada. Enquanto em Rondônia e Mato Grosso o problema é chuva em excesso, na Bahia, outro grande produtor nacional, os produtores estão sendo penalizados pela falta dela. Coisas de um país com dimensões continentais, como é o caso do Brasil.

            O cenário piora por conta do preço internacional da soja – este é estabelecido por uma conjunção de fatores, dentre os quais se destaca a produção mundial, que este ano foi elevada. A soja em Vilhena está sendo comercializada a R$ 43,00 a saca – esse preço já foi melhor. Como a única moeda que o produtor dispõe é o grão, num cenário de safra ruim ele naturalmente se descapitaliza. Parar de plantar nem pensar. Não faz parte da cultura do plantador de grãos. Só resta tentar de novo, do contrário pode quebrar em definitivo. O produtor sempre acredita que a próxima safra será melhor. É assim que alguns deles pagam, ainda hoje, dívidas de safras anteriores – algumas datam do longínquo ano de 2005. E assim a vida segue.

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[tab title=”Rondônia Em Pauta”]Fotos: Marcus Fernando Fiori[/tab]
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