Claudionor e Leiliane felizes com Jean, que nasceu após o tratamento da mãe acometida por doença ainda pouco conhecida

Dezoito gestantes ganharam bebês saudáveis após tratamento contra a doença trofoblástica gestacional (mola hidatiforme) no Centro de Referência de Doença Trofoblástica de Rondônia (Centrogesta), que funciona na Unidade de Oncologia do Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, em Porto Velho.

Claudionor Pereira de Souza acompanha o tratamento da esposa, Leiliane Rodrigues dos Santos, antes e depois da chegada de Jean, de um mês. Ambos são deficientes auditivos. Ele é professor de Língua Brasileira de Sinais (Libras), ela trabalha em casa.

Leiliane já tinha um filho, quando foi diagnosticada com a doença em 2014. Começou a se tratar, teve alta em 2016, e ainda frequenta o hospital.

Embora ainda não exista estatística confiável, acredita-se que no país haja um caso de mola para duzentas a quatrocentas gestações normais.

Desde 2013, quando o Centrogesta foi criado e passou a funcionar no HB, ninguém ouvia falar nessa doença em Rondônia, até que a médica Rita de Cássia começou a se dedicar ao atendimento e ao seu estudo.

Atualmente, 322 mulheres com doenças da placenta são atendidas em Porto Velho. Entre outros cuidados, funciona o tratamento quimioterápico.

“Nenhuma mulher morreu em quatro anos de intenso atendimento; reconhecemos a boa parceria que até agora conseguimos”, comenta a diretora do Centrogesta, médica Rita de Cássia Alves Ferreira da Costa.

Os parceiros aos quais se refere são o diretor do Laboratório de Patologia e Análises Clínicas (Lepac), Paulo Giroldi, e equipe; a médica patologista Cindy Bariani; a psicóloga Rose Brito, atualmente na Agência Estadual de Vigilância em Saúde (Agevisa), e voluntária do serviço; Unidade de Oncologia do HB; Hospital São Pelegrino; Hospital de Amor da Amazônia; e enfermeiros da unidades básicas de saúde no interior do estado.

No ano passado, o Centrogesta foi destaque no relatório do Ministério da Saúde, pela contribuição estratégica ao Panorama da Vigilância Epidemiológica das Doenças Crônicas Transmissíveis no Brasil. Conheça o relatório.

Há pacientes de alto e de baixo risco, explica Rita de Cássia. O que acontece após a confirmação do diagnóstico? Ela explica que o útero deve ser esvaziado o quanto antes. “Trata-se de procedimento cirúrgico sob anestesia geral, feito por médico, e mesmo não sendo uma cirurgia complexa, há riscos comuns, como em todo procedimento: perfuração uterina e hemorragia, mas tranquilizamos as mulheres, porque o tratamento é adequado”, esclarece.

Segundo ela, após o esvaziamento uterino, 80% das pacientes com mola completa e 95% daquelas com mola parcial evoluirão para a cura sem a necessidade de nenhum outro tratamento.

O esvaziamento uterino leva à gradual queda dos níveis de hCG sanguíneo, até atingir os níveis normais não gravídicos (menor que 5 mUl/mL). hCG é a sigla que representa o hormônio gonadotrofina coriônica, que só é produzido quando a mulher está grávida ou possui alguma alteração hormonal grave, que esteja sendo causada por alguma doença.

Médica Rita de Cássia e a voluntária Rose Brito, da Agevisa

DIMINUIR MORTALIDADE MATERNA

Lembra Rita de Cássia que 20% das pacientes com mola completa e 5% com mola parcial não terão normalizados os níveis de hCG, daí a necessidade de outros tratamentos. “E as portas do Centrogesta estão abertas para prevenir consequências mais sérias; quando o tecido placentário anormal cresce, dizemos que a paciente desenvolveu uma neoplasia troflobástica gestacional”, explica.

A diminuição da mortalidade materna é um dos fatores positivos a impulsionar o trabalho do Centrogesta, que também envia pacientes pelo SUS para tratamento no Instituto Nacional do Câncer e na Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro.  Com neoplasia trofoblástica, Luana Zambotti, atualmente comerciária em Belo Horizonte (MG), esteve lá e venceu a doença.

Marilza Prado retornou bem a Porto Velho, após passar pelo exame pet scan, que constatou uma lesão pulmonar em consequência da mola. Essa tomografia computadorizada por emissão de pósitrons é muito utilizada para diagnosticar precocemente o câncer e outras 20 doenças.

CAMPO DE ESTÁGIO

“Doutor, que aconteceu com minha gravidez?”, “Doutor, a mola é doença maligna, um tipo de câncer”?”, “Doutor, por que eu?”, “Doutor, posso ficar grávida outra vez, sem riscos?”, “Doutor, por que eu preciso fazer tantas consultas depois de passar pela internação para ser submetida ao tratamento da mola?”.

Catalogadas pelo professor doutor Bruno Maurizzio Grillo, diretor do Centro de Doenças Trofoblásticas do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná, decano da Sociedade Brasileira de Doenças Trofoblásticas, essas perguntas são comumente feitas nos centros de referência.

Campo de estágio para acadêmicos de diversas Faculdades de Medicina, o Centrogesta recebe diretamente o apoio da Agevisa, onde a psicóloga Rose Brito, aproveitando o trabalho da equipe de Saúde em Família, responsável pelo programa pré-natal, capacita diversas turmas dispostas a aprender mais a respeito da doença trofoblástica.

No Rio de Janeiro, o médico especialista Antonio Braga recebe regularmente pacientes de Rondônia. Em 2015 ele veio a Porto Velho para uma palestra e conheceu o atendimento. O médico especializado em obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, Maurício Guilherme Viggiano, também veio e também se tornou um incentivador ao esclarecimento da doença.

Para a médica Rita de Cássia, a detecção do problema e o acompanhamento constituem o tempo exato para salvar vidas. O sentimento de doação persiste, lembra a psicóloga Rose:

“Aqui, a gente põe a paciente no colo e chora com ela, quando tem alta”, diz.

MOLA HIDATIFORME (mh)

Psicóloga Rose Brito e pacientes em tratamento, na entrada da Unidade de Oncologia do Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro

► Existe a mola hidatiforme completa e a mh parcial, capazes de evoluir para formas invasoras e/ou malignas nomeadas mola invasora, coriocarcinoma, tumor trofoblástico do sítio placentário e tumor trofoblástico epitelioide.

► A gravidez molar é diferente, anormal. Na mh completa não há embrião, e é mais comum nas pacientes; já na mh parcial ele se desenvolve inicialmente.

► Sabendo tratar essa doença, identificam-se precocemente suas complicações e diminui o tempo de tratamento. A curta é certa.

► É fundamental que a mulher com gravidez molar frequente periodicamente o Centrogesta, para exames e monitoramento do hCG; fazer ultrassonografia e raio X, e saber se o seu caso evolui para remissão espontânea, ou se necessitará tratamento para conseguir a cura (remissão pós-tratamento).

► Mh completa, de baixo risco, acontece nos casos em que o tamanho uterino é igual ou menor à idade gestacional, o nível do hCG é semelhante ao de uma gestação normal, a idade materna inferior a 40 anos, e quando não existem outros fatores associados.

► Mh completa, de alto risco ocorre quando o útero é maior que a idade gestacional, os níveis de hCG mais altos que em gestações normais, os ovários se apresentam aumentadas e com cistos; a idade maior que 40, associada à hipertensão, hipertireoidismo, distúrbios de coagulação e/ou história prévia de gravidez molar ou neoplasia trofoblástica gestacional.

[Informações dos médicos especialistas Maurício Viggiano, professor da Faculdade de Medicina da UFG, e Bruno Maurizio Grillo, professor da Faculdade de Medicina da UFPR).

DIA DE ATENDIMENTO

Toda quinta-feira, das 13h às 18h, na Unidade de Oncologia (Unacon), antigo Hospital Barretinho, no Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, em Porto Velho.
Telefone: 69 3216 5719.

Fonte
Texto: Montezuma Cruz
Fotos: Frank Néry
Secom – Governo de Rondônia