O jornalista e escritor Julio Olivar lança novas luzes sobre a grave questão dos búfalos selvagens de Rondônia, os GIGANTES GENTIS DO GUAPORÉ, e expõe as preocupantes contradições da Ação Civil Pública do MPF.
Incongruências na Ação Civil Pública sobre matança de búfalos selvagens
Rondônia – A Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público Federal (MPF) (veja aqui https://www.mpf.mp.br/ro/sala-de-imprensa/docs/2025/inicialPROCESSO_100055659.2025.4.01.4101AOCIVILPBLICA.pdf) apresenta contradições que merecem uma análise mais aprofundada.
Embora o MPF reconheça que os búfalos foram introduzidos artificialmente na década de 1950 pelo próprio Estado, a solução proposta não considera a responsabilidade histórica dessa intervenção. Em vez de buscar alternativas sustentáveis para o manejo da espécie, a ACP sugere o extermínio em larga escala, punindo os animais por um erro humano do passado.
Outro ponto contraditório é o argumento de que os búfalos são a principal ameaça ao ecossistema da Reserva Biológica do Guaporé. A degradação ambiental na região não se deve exclusivamente à presença desses animais, mas também ao desmatamento ilegal, às queimadas e à expansão agropecuária. A ação, no entanto, não menciona essas outras pressões ambientais, concentrando-se apenas na erradicação dos búfalos como solução para a conservação da área.
O MPF justifica a necessidade de erradicação com base na competição dos búfalos com o cervo-do-pantanal, uma espécie ameaçada de extinção. No entanto, a eliminação brusca de uma espécie já integrada ao ecossistema pode gerar novos desequilíbrios, incluindo o risco de aumentar a predação de espécies nativas por onças-pintadas e outros predadores que se adaptaram à presença dos búfalos. Se esses predadores perderem sua principal fonte de alimento, podem buscar novas presas, colocando em risco justamente as espécies que a ACP pretende proteger.
A falta de detalhamento sobre a logística e os custos da operação de extermínio também se mostra um ponto frágil da ação. A reserva está localizada em uma área de difícil acesso, com vastas regiões alagadiças, o que torna qualquer ação de abate em massa uma operação complexa e dispendiosa. A ACP não apresenta estimativas de custos nem esclarece como será feito o descarte das carcaças, um fator que pode gerar riscos sanitários e ambientais adicionais.
Outra contradição relevante é a ausência de alternativas ao extermínio na argumentação do MPF. Métodos de controle populacional, como esterilização, realocação e programas de manejo sustentável, sequer são considerados na ação, embora já tenham sido testados com sucesso em outros países para o controle de espécies exóticas. Além disso, não há qualquer estudo apresentado sobre o potencial aproveitamento econômico dos búfalos para produção de carne e leite, o que poderia beneficiar comunidades locais sem comprometer o equilíbrio ecológico da reserva.
Se os búfalos foram introduzidos artificialmente pelo próprio Estado e apenas lutaram para sobreviver, é justo condená-los à morte, ignorando sua dor, medo e vínculos familiares?
A vida desses gigantes gentis tem menos valor do que a fauna e a flora nativas, ou devemos buscar um equilíbrio que respeite todas as formas de existência sem causar sofrimento?
Se há métodos alternativos, como controle populacional e realocação, qual é a justificativa moral para submeter milhares de seres sencientes a uma morte violenta e agonizante?
A preservação ambiental pode ser usada para justificar o extermínio cruel de animais que há décadas fazem parte do ecossistema e desenvolveram laços sociais e comportamentais?
Ao escolher o abate em massa como solução, estamos protegendo a biodiversidade ou decidindo arbitrariamente quais vidas têm valor, ignorando o sofrimento dos búfalos e o impacto de sua ausência no equilíbrio natural?
Quantas vidas podem ser apagadas em nome da pressa e da conveniência, quando há alternativas que poderiam poupar o sofrimento e preservar a harmonia do ecossistema?
Se por 70 anos esses gigantes gentis sobreviveram, criaram laços e se tornaram parte do ambiente, que direito temos de decidir, de um dia para o outro, que eles não merecem mais existir?
Com que lógica se justifica gastar milhões para exterminar a tiros seres vivos que não escolheram estar ali, quando esses mesmos recursos poderiam salvar vidas e restaurar o equilíbrio de forma ética e sustentável?
Se a morte dos búfalos for decretada, quem responderá pelo rastro de desolação que virá depois — pela fome dos predadores, pelo impacto silencioso na terra e pela ruína de um ecossistema ferido?
Será que daqui a alguns anos olharemos para trás e reconheceremos que erramos novamente, não por trazer os búfalos, mas por escolher a morte ao invés do entendimento, repetindo o ciclo da destruição?
Autor: Júlio Olivar / Jornalista / MTb 0001873/RO