original_paulo-malufO sistema eleitoral brasileiro é elogiado por muitos, principalmente pelos próprios políticos, que são os que efetivamente se beneficiam dele. É 32 o número de partidos políticos registrados no país (http://www.tse.jus.br/partidos/partidos-politicos). Em tese, todos os “chefes” e filiados dessas agremiações deveriam conhecer seus estatutos, filosofias e ideologias. E ao grande público resta possibilidade de, ao se votar num candidato, estar se escolhendo também um programa partidário de governo – uns mais à direita, outros mais à esquerda, os demais ao centro. Uns desenvolvimentistas, outros conservacionistas. Uns liberais, outros centralizados. Enfim, isso seria um voto consciente.

Será que os pouco mais de 19 mil eleitores do Zé Rover (na última eleição) sabem a que partido ele pertence? Será que sabem em que zona político-ideológica essa agremiação se encontra? Será que a história do Partido Progressista (PP) é conhecida do eleitor local? Será que alguém o conhece em nível nacional e já ouviu falar dos seus “caciques”? Bem, para os que não conhecem, os brindarei com valiosas informações para, quem sabe, subsidiar seus votos nas próximas eleições.

A ARENA – Primeiro, cabe discorrer sobre a origem do partido do Zé Rover, o PP, e trazer à tona um pouco de sua história. Tudo começou na longínqua década de 1960. A ARENA – Aliança Nacional Renovadora – foi o partido criado em 1966 para dar sustentação à ditadura militar instalada no país no golpe de 1964. A agremiação foi produto direto do Ato Institucional nº 2 (AI-2), que extinguia o pluripartidarismo no Brasil. Apesar das tentativas de formação de um terceiro partido, os arranjos políticos culminaram na criação apenas da ARENA (de apoio ao regime) e MDB – Movimento Democrático Brasileiro – (de oposição ao regime).

Ao se apresentar como partido político de apoio ao regime militar, a ARENA atraiu para seus quadros as forças mais conservadoras de então. Dentre vários nomes de destaques, três em particular chamavam a atenção: Antônio Carlos Magalhães, José Sarney e Paulo Salim Maluf – símbolos da corrupção desenfreada e do coronelismo que afloraram no país a partir de então.

O PDS – A nova lei orgânica dos partidos políticos, a de nº 6.767, de 20 de dezembro de 1979, restituiu o pluripartidarismo no Brasil. Desgastada pelo apoio intensivo que vinha dando ao regime militar, a ARENA se rebatizou PDS – Partido Democrático Socialista. Por seu turno, o MDB apenas acrescentou o “P” à sua legenda, passando a se denominar Partido do Movimento Democrático Brasileiro.

Sob a nova roupagem “PDS”, os antigos arenistas viveram o auge de sua atuação política nas eleições de 1982, quando fizeram a maioria das cadeiras no Congresso Nacional e, por conseqüência, obtiveram a maioria no colégio eleitoral que iria eleger o presidente da República em eleições indiretas de 1985.

Era para ser uma eleição tranqüila para a legenda, não fosse o fato de a cúpula ter empurrado o nome de Paulo Maluf para representar os “pedessistas” no pleito contra o “peemedebista” Tancredo Neves. A imposição de Maluf gerou um racha no partido, ocasião que os dissidentes criaram a chamada “Frente Liberal”, movimento que decidiu apoiar a eleição de Tancredo Neves, selando a vitória deste. A “Frente Liberal”, mas tarde, viria a se tornar um partido independente do PDS: o PFL (Partido da Frente Liberal), atual DEM (Democratas).

O PPR E O PP – Com a redemocratização, o PDS foi (literalmente) tomado de assalto por Paulo Maluf e o grupo a ele ligado. Com imagem fortemente associada à corrupção (“rouba mas faz”), em 1993 Maluf, líder máximo do partido, decidiu fundi-lo com o PDC (Partido Democrata Cristão), criando a partir de então o PPR – Partido Progressista Reformador. Mais tarde, juntaria a nova sigla ao PRP – Partido Republicano Progressista e, da união, nasceria finalmente o Partido Progressista que perdura até hoje.

O MALUFISMO – Falar de PP sem fazer referência ao malufismo é cometer uma grave injustiça com a história. Para poupar trabalho – meu e do leitor –, vou reproduzir aqui um trecho que encontrei na Folha On Line que explica muito bem o fenômeno (trecho completo em http://www1.folha.uol.com.br/folha/publifolha/ult10037u351776.shtml):

“Corrente populista de direita, o malufismo surgiu em São Paulo no final do regime militar, durante a gestão de Paulo Salim Maluf no governo do Estado (1979-1982). (…) Paulo Maluf começou sua carreira política alinhado aos militares que tomaram o poder em 1964. Foi prefeito nomeado de São Paulo (1969) e secretário estadual de Transportes (1971), mas só se projetou nacionalmente em 1978, quando venceu a eleição para o governo de São Paulo”.

Em referência à insatisfação popular com a ARENA e o próprio Regime Militar:

“Essa insatisfação culminou na campanha pelo restabelecimento de eleições diretas para presidente, em 1984. Maluf contribuiu para derrotar a emenda das diretas e impediu que as facções do PDS chegassem a um nome de consenso à sucessão. Rachou o partido, mas foi escolhido candidato a presidente. Inspirou a criação do verbo ‘malufar’, usado pelos adversários em sentido pejorativo. Passou então a personificar a continuidade de um regime rejeitado pela maioria da população, tornando-se o político mais odiado da época”.

“(Paulo Maluf) Perdeu quatro eleições de 1986 a 1990, mas manteve um eleitorado cativo no estado e, principalmente, na capital de São Paulo, onde foi eleito prefeito em 1992 e elegeu Celso Pitta em 1996. Em 1998, voltou a perder a eleição para governador”.

“O que unifica politicamente esses setores (que apóiam o malufismo) não é o fato de possuírem a mesma renda ou escolaridade, mas o de não terem vínculos com qualquer organização capaz de representar seus interesses. Esse isolamento social leva essas pessoas a apoiarem líderes carismáticos, aos quais atribuem uma capacidade para transformar a realidade que elas mesmas julgam não possuir. Como dizia um taxista na eleição de 1989: ‘Eu não entendo nada de política. Agora, o Maluf entende, ele é inteligente. Maluf conhece a engrenagem’. Para seus eleitores, o líder tem o poder de presenteá-los com obras (resultado de sua ‘competência’) e de protegê-los de seus inimigos (reprimindo aqueles que os ameaçam). E quais são seus adversários? Segundo o sociólogo Antônio Flávio Pierucci, os malufistas sentem-se ameaçados pelos delinqüentes, pelos migrantes nordestinos, pelos homossexuais, pelas mulheres liberadas, pelos mendigos e crianças abandonadas. São radicalmente antiigualitários, pois estão convictos de que as pessoas não são iguais, mas irremediavelmente diferentes”.

“O que os malufistas querem do Estado? Querem um Estado realizador, que faça muitas obras e garanta seu bem-estar social e sua segurança. Mas querem sobretudo ‘ordem’: condenam as invasões de terras e acham que as greves acabam em ‘baderna’. Temem quaisquer movimentos que possam ameaçar seu status social e rejeitam qualquer ruptura da hierarquia. Como nota o cientista político André Singer, o eleitorado de direita deseja ‘reforçar a autoridade do Estado e apóia o seu direito de reprimir os movimentos sociais’, ao contrário da esquerda, que prefere mudar a sociedade a partir da mobilização direta da população, contestando o poder estatal. Daí a crença de que somente um líder de autoridade incontestável ou uma ditadura podem realizar as mudanças de que o país necessita”.

CORONELISMO E ROUBALHEIRA – O espólio da ARENA (PP e DEM), quando juntados, corresponde a uma das quatro maiores forças políticas brasileiras em número de políticos eleitos em todos os níveis e em representação no Congresso Nacional. Porém, sua marca histórica, desde a ARENA, passando pelo PDS e chegando às siglas atuais, é se estabelecer nos rincões do país, em municípios pequenos, geralmente pobres e com população facilmente manipulável e pré-disposta a se render aos encantos de líderes carismáticos e populistas, ou seja, um povo que sempre espera o “salvador da pátria”.

            Tamanho não é garantia de qualidade. A partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TER), o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) listou os partidos que tiveram maior número de parlamentares cassados por conta de escândalos de corrupção desde 2000. O DEM (ex-Arena e PDS) aparece em primeiro lugar. O PP (ex-Arena e PDS) aparece em quarto lugar – perde talvez porque sua representação parlamentar é bem menor do que dos antigos parceiros de ARENA.

Marcus-Fiori-ArtigosSe não for mero oportunismo eleitoral, as pessoas que se filiam a um partido devem conhecer e aprovar o seu programa, e deve adotar as suas filosofias e ideologias. Podemos dizer então que Zé Rover, prefeito de Vilhena – claro que não é um oportunista eleitoral, imagine – não está no PP por acaso. Está lá porque acredita na legenda e porque é um perfeito malufista, certo? Negar essa condição seria assumir que não passa de um reles oportunista eleitoral.

Então é isso! É isso que o grande público de Vilhena elegeu. Pessoalmente, só torço para que aconteça com o malufismo regional o mesmo que está acontecendo com o Paulo Maluf que o inspira: que caia no ostracismo, posto que é ruim. O malufismo brasileiro é lembrado apenas pelos malfeitos que cometeu ao longo das décadas, e pelos danos que causou à sociedade que nele acreditou e o acolheu. Não precisamos chegar a esse ponto aqui em Vilhena. Podemos nos livrar do nosso malufismo antes que as nossas esperanças virem desilusões.